quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Medium

Migrei para o Medium. Me encontrem aqui

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

"A Quinta Estação"


Alguns livros que mais marcam não são os melhores que lemos. De vez em quando aparece algum que pega de jeito, deixando a gente preso mentalmente no texto, dançando entre suas ideias, fascinado com sua forma. Foi assim comigo com "O pintassilgo", com certeza não o melhor livro que li, mas um dos que mais me gerou lembranças. Também estão na lista "A Assustadora História da Maldade" (que me rende anedotas até hoje) e uma biografia de Ivã, O terrível.

Comecei a ler há algumas semanas "A Quinta Estação", de N. K. Jemisin, escritora americana ganhadora do prêmio Hugo de ficção com este livro. Como é de praxe, a trata-se do primeiro volume de uma trilogia já concluída. Mesmo não sendo perfeito, a história me fascinou totalmente.

"A Quinta Estação" conta a história de Quietude, um mundo onde abalos sísmicos acontecem todos os dias e algumas pessoas (brutalmente odiadas) têm poder de realizar e anular esses terremotos, fissuras e até vulcões. Chamam a atenção fortes protagonistas femininas e as ideias estranhíssimas, compondo um mundo realmente diferente do nosso.

Apesar da dificuldade de passar pelos primeiros capítulos, recomendo muito.

"Winter, Spring, Summer, Fall; Death is the fifth, and master of all"
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Estou também encantado com "Altered Carbon", série de ficção científica da Netflix. Fantasia cyberpunk e faroestes são meus gêneros preferidos atualmente, e não sei dizer o quanto da minha paixão pela série vem desse amor. Mas ver a morte retratada como o definitivo nivelador social me encantou (se não há morte, como Hamlet faria o monólogo com a caveira de Yorick? - "Ser, ser para sempre.", e as questões humanas desaparecem sob o tapete.)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Fluxo de consciência

Chegando ao trabalho pela manhã

Durante essa semana pensei nas virtudes sem nome, coisas que algumas pessoas conseguem naturalmente e que trazem boas coisas para elas e para os outros. Pensei, por exemplo, na qualidade de ver beleza em meio à rotina. Não é a beleza da rotina, é valorizar as pequenas coisas que acontecem todos os dias e que têm beleza em si. O sol nascendo e se pondo, a lua alta no céu. O cheiro de uma xícara de café, o sorriso de alguém amado.

Pensei que uma vida plena passa necessariamente por aprender a observar tais momentos e se sentir grato por eles.

Pensei em quanto isso é brega. Pensei no personagem que filma sacolas dançando ao vento em Beleza Americana. Pensei no quanto mudei em menos de um ano. É um clichê e todo mundo sabe. Pensei que é brega, realmente, mas eu não ligo mais pra isso. É a minha hora de falar.

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Hoje li alguém dizendo que não se escreve para ser lembrado, nem para transmitir ou comunicar. Escreve-se em areia, pelo fim mesmo de escrever.

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Vou tentar escrever aqui semanalmente.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

2017


Ciclos começam e se encerram, mas dar um nome a eles e trancá-los em um lapso determinado de tempo é quase sempre uma arbitrariedade sem sentido. Isso posto, na minha vida, 2017 foi um coice.

Em 2017 meu mundo ruiu. Entrei em um buraco de onde achei que não iria sair, mas saí. Aos trancos, quase empurrado, mas saí. Aprendi que sou mortal, falível, quebrado. Aprendi que a vida acaba. (Claro que todo mundo sabe disso intelectualmente, mas viver isso nos ossos é outra coisa totalmente diferente).

Claro que um coice não é nada agradável, mas te projeta em direção a outros rumos. Aprendi também que estou vivo e que gosto de estar vivo. E que pra amar, é preciso me amar. Reaprendi a paternidade ao ver o Alexandre não mais como um pupilo, muito mais como um companheiro. Em um nerd, o efeito de perder no videogame para um filho é algo marcante.

Obrigado a todos que de alguma forma participaram da aventura, com amor, amizade e compaixão. Devo muito a muitas pessoas por esse ano, por uma infinidade de motivos. Não desistam, e aguardem cenas dos próximos capítulos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Barkley Marathons


Eu não gosto de corrida, nunca gostei de correr. Mas eu gosto muito de documentários, e gosto muito de histórias de pessoas tentando e às vezes conseguindo o impossível. Por isso recomendo a todos o excelente "The Barkley Marathons", talvez o melhor filme que vi esse ano - não tanto pelo que ele é, mas mais pela forma que me acertou. Tem na Netflix.

Vou explicar bem brevemente pra não estragar nada. Um cara organiza uma ultramaratona que, nos primeiros dez anos, ninguém conseguiu completar. O documentário é sobre um ano da corrida e sobre esse cara. O organizador mistura umas frases de sabedoria estranha (que é mostrada sem ostentação, mais como se fosse algo natural, não forçado) com um sadismo cômico que nem tenta disfarçar. Pra entrar na corrida, você precisa ser avaliado, pagar 1,60 e um item que o organizador esteja precisando no momento (uma meia, uma camisa de flanela).

"Barkley Marathons" é interessante por ser um show do que é a alma interior dos esportes, algo que só vemos em pequenas fagulhas nos futebóis da vida: o desejo de tentar ser mais e melhor do que si mesmo e os outros. O desejo de tentar e fazer o que é considerado impossível e a admiração que isso desperta.

domingo, 9 de outubro de 2016

Marília


Tendo me mudado pra Marília ontem, achei que era uma boa hora pra ressuscitar esse espaço. Quem sabe não retomo alguma regularidade? Veremos.

- Marília me lembra muito de São Carlos, no tamanho e nos espaços em branco no meio da cidade. Marília tem vales difíceis de popular, além de uma linha de trem inconveniente que corta a cidade em duas. São Carlos tem (ou tinha) buracos não populados em áreas bem valorizadas da cidade, por conta de disputas judiciais e especulação imobiliária. Os cinemas das duas são ruins, mas acho que o de S. Carlos, back in the day, era pior.

- A primeira imagem que me vem à cabeça quando penso em S. Carlos é a Praça da XV, um dos centros culturais da cidade. Pra Marília a imagem é essa da foto, a cidade atrás da curva, sinal de que estava chegando (invariavelmente atrasado) para trabalhar. É uma imagem de movimento, de passagem, que espero mudar em breve. De qualquer forma, a sensação de avistar os prédios na colina sempre foi muito boa.

- As pessoas até agora foram muito educadas em todas as conversas, mas sinto que falta uma gentileza genérica para situações onde a generosidade não tem rosto, quando você não está vendo com quem está sendo educado. Um certo espírito vingativo no trânsito, do tipo "você me ultrapassou, então não vou te deixar entrar na minha faixa". As bandejas sujas nas mesas do shopping, poucas pessoas se dignando a levá-las até o lixo (deve ser um sacrifício extremo). E aqui em Marília também temos um fenômeno de senciência bizarro que nunca vi em cidades ligeiramente maiores: as mesas no horário de pico são ocupadas por molhos de chaves, óculos, blusas e bolsas, que aparentemente também precisam se alimentar.

- Eu diria que falta um pouco de capitalismo aos marilienses; cobrar estacionamento no shopping provavelmente resolveria o problema. Mas essas seria uma solução preguiçosa.

- Marilienses gostam muito de Amaroks (a caminhonete tão grande que mais parece um caminhão, ali na vaga do supermercado pra levar a esposa e o filhinho pra comprar pão). E cebolinha. Cebolinha no sushi, cebolinha na pizza de calabresa, cebolinha no temaki, cebolinha cebolinha cebolinha.

Apesar de toda a implicância, gostei da cidade. E me sinto quase obrigado a gostar, depois de ser recebido tão bem, saindo de uma fase tão ruim. Valeu Marília, tomara que nos entendamos por um bom tempo.

domingo, 20 de março de 2016

My Beautiful Broken Brain

My Beautiful Broken Brain (disponível na Netflix) é um documentário sobre o primeiro ano da recuperação de Lotje Sodderland, roteirista de 34 anos, depois de um derrame. Com problemas de leitura, fala e memória, Lotje começa a gravar toda a sua rotina no telefone como forma de fazer um registro e não ter sua vida apagada em seus lapsos de consciência.

O filme tenta mostrar o mundo pela visão da protagonista, uma profusão muito confusa de cores e sons. Um semi-sonho estranho, como um filme de David Lynch, onde alucinação e realidade se misturam, os instantes e a percepção de tempo se alongam e distorcem. Lynch acaba se tornando produtor do documentário depois de insistentes mensagens de Lotje.

Além da já esperada história de superação e percalços, gostei de como Lodje se volta pra dentro de seu eu como forma de reaprender a viver, não levando em conta suas limitações, mas expandindo sua consciência. Como numa citação de Lynch que aparece duas vezes: "Within your own self is a treasury, an ocean of pure bliss, consciousness, intelligence, creativity and love". Lynch é adepto de meditação e acredita que através dela podemos encontrar níveis mais altos de consciência e paz. Em tempos tão cheios de revolta e agressividade, a ideia parece estranha como uma flor em meio a escombros.

Outra coisa interessante é que a memória auxiliar de Lotje - seu celular gravando constantemente - e o próprio documentário são um contraponto a visões negativas sobre as relações entre sociedade, cultura e tecnologia disseminada. O processo de gravar sua rotina e transformar os vídeos em um documentário se torna parte de seu processo de recuperação, além de ser uma experiência rica pra quem assiste. Não precisa ser como em Black Mirror. Não podemos ser otimistas demais, mas também não é preciso ser tão pessimista.

domingo, 13 de março de 2016

Sobre 13/03


Vamos brincar de onde está Wally?
Encontre a limousine; encontre a babá empurrando o carrinho; encontre o cartaz pedindo intervenção militar. Exponha; fale como se fosse a regra, ignore as proporções e você vai ter um argumento de culpa por associação prontinho.

Mas se vale a culpa por associação, também podemos acusar os defensores do governo de estarem aliados a grupos extremamente retrógrados da CUT e do MST, que apoiam ditaduras de esquerda abertamente. Ou podemos falar de Lula, que tirou fotos dando a mão a Ahmadinejad, anti semita notório, e também chamou o ditador Kadafi de amigo e irmão para o mundo inteiro ouvir. E claro, nenhum governista gosta de ser chamado de bandido, ainda que o partido do governo dificilmente passe uma semana sem ter algum de seus membros levado pra cadeia.

(Não acho que quem defenda o governo possa ser chamado de bandido, mas também não acho que quem esteja contra possa ser chamado de fascista. You can't have it both ways.)

A associação é um instrumento, uma ferramenta de retórica usada com um objetivo simples: deslegitimar o protesto. As pessoas não estão preocupadas de verdade com a dignidade da babá, ou não exporiam sua imagem. A babá vira um objeto duas vezes, primeiro pelo empregador utilizando seu trabalho estranhamente uniformizado em um domingo, em um evento onde a presença de uma babá é no mínimo estranha; e segundo por quem posta a foto e a chama de escrava, sem lhe dar voz, sem saber de sua história e expondo seu rosto, com óbvios objetivos políticos.

Li alguém no twitter falado de Churchill, que ilustra bem como é fraco o argumento da associação. Churchill era bom em antever os objetivos dos outros e descrevia o mal que via em Stálin enquanto os presidentes americanos ainda o adoravam. Mesmo assim, se uniu a ele para derrubar Hitler. Churchill não passaria por um argumento de culpa por associação, mas passou no teste da história; você pode não gostar dele, mas se ele não tivesse existido e tomado as decisões que tomou, é possível que hoje estivéssemos todos falando alemão.

Não me sinto culpado por ser abertamente contra o governo, mesmo que outras pessoas com ideias que não condizem com as minhas cheguem à mesma conclusão. Como disse Eduardo Jorge, a rua é larga.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O despertar da Força

(Spoilers levíssimos, leia sem medo)

Há algum tempo atrás me surpreendi, ofendido, com algumas pessoas (provavelmente publicitários) falando de Star Wars em uma sorveteria. "A Marca", eles diziam. "O Produto", e a conversa girava em torno desse aspecto. Seria inocente da minha parte crer que um fenômeno tão grande de cultura pop escapasse de uma visão puramente mercantilista. Mas Star Wars é muito mais que um produto vendável.

Não vi a trilogia original nos cinemas por não ter idade pra isso. Mas conforme cresci fui assistindo aos filmes, intercalados, na ordem em que a TV estivesse passando naquele momento. Com o tempo, Luke, Yoda, Vader, Solo e Leia entraram na minha lista mitológica pessoal, tão presentes como qualquer personagem religioso. Não é uma questão de gostar dos filmes. Você não gosta de Star Wars. Você participa de Star Wars ou não. Você escolhe, ou entra do fenômeno de cultura de massa ou não.

A primeira sessão em que assisti a "O Despertar da Força" foi na estreia e catarse define bem. Gritos, aplausos, cavaleiros Jedi e Siths a caráter, pencas de sabres de luz. Um filme maravilhoso, inclusivo sem ser chato, respeitoso com a tradição original. Não se pode esperar menos de um ritual religioso.

Mas na segunda vez em que assisti ao filme, dublado, com meu filho de oito anos do meu lado, é que me senti arrebatado. É estranhamente emocionante ver Leia e Han Solo juntos. É lindo poder acompanhar esses mitos encarnados, trinta anos depois, acompanhados de novos deuses que se juntam ao panteão, com seu filho fazendo comentários sobre a personalidade do BB-8.

Pensei que há trinta e tantos anos atrás algum pai pode ter levado seu filho ao cinema, e agora este filho agora é o pai que leva o filho ao cinema. Pensei, com lágrimas nos olhos, que daqui a dez, vinte, trinta anos, meu filho pode dizer que esteve lá, no cinema, com um sabre de luz e camiseta do R2D2.

Star Wars, Senhor dos Anéis.... não são só histórias. São histórias que, acompanhadas por tanta gente, geram outras histórias em ramificações infinitas.

"Papai, por que sua mão está molhada?"

Eu estou suando, filho, é isso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

The Leftovers

Ontem coloquei um livro inusitado em meu e-reader: A Bíblia. Queria reler algumas passagens, motivado pelo episódio final da primeira temporada de The Leftovers. A segunda temporada está sendo exibida atualmente pela HBO.

Na Bíblia, Deus e o Diabo fazem uma espécie de aposta sobre a fidelidade de Jó, o mais devotado dos humanos da Terra. Com o objetivo de testar a lealdade de seu servo, Deus permite que o Diabo tire de Jó tudo o que ele preza - sua família, seus amigos, sua riqueza, sua saúde. Mesmo assim, coberto de escaras, sozinho, mendigando, Jó não abandona sua crença e, no final, Deus restitui tudo o que ele havia perdido.

Em The Leftovers, o policial Garvey é uma especie de Jó às avessas. Assim como na história bíblica, ele perde tudo - sua família e sua sanidade - mas, dessa vez, por intervenção direta de um Deus atuante. Ao contrário de Jó, Garvey é um descrente - tanto do divino quanto de sua própria vida. Antes do arrebatamento, ele não acreditava que a vida "era só isso": sua família, seu trabalho, a rotina, o cachorro que sua mulher tanto quer. Depois do arrebatamento ele continua cético, tentando retomar a rotina, fingindo que nada havia acontecido enquanto caminha para a loucura a passos largos. Garvey é como um Paulo que, tendo a revelação divina, continua a perseguição aos cristãos. Somente no final da temporada ele aceita seu destino e de certa forma tem sua vida reabilitada.

A ideia de sentido para a vida (purpouse) aparece várias vezes e fica clara a metáfora para a busca de significado em nossas próprias vidas. No mundo real, é comum um descrente ouvir a pergunta: "Se não há Deus, qual é o sentido de existir?", como se isso fosse um argumento ou dúvida legítima e não uma ameaça. O arrebatamento reverbera e amplifica a pergunta: "Há Deus, mas ele não gosta de você. Qual é o sentido de existir?". Todo o esforço secular de construir uma existência pacífica e um significado próprio para a vida é roubado, reduzido a pó, quando Deus faz sua seleção e deixa você de fora. A existência tem um significado fundamentado por Deus, mas você não está nos planos. Algumas vidas têm sentido, a sua não.


A revelação da existência do divino em um evento tão inegável funciona como uma verdade desastrosa. Deus não surge para curar ou salvar; para os deixados, ele surge como uma condenação, uma sentença de morte e sofrimento. Não há esperança, não há tempo para se arrepender. O silêncio e o fumo dos Guilty Remnant são a aceitação do desastre. Não há perdão, então não há o que ser dito. O fim definitivo está chegando, e a morte que virá dele será mais terrível e rápida que qualquer câncer de pulmão.

The Leftovers é uma série excelente, mesmo parecendo não saber que história está sendo contada. O perambular aparente também se relaciona com o tema e o alvo da narrativa: The Leftovers é uma história com inspiração bíblica voltada a um público materialista.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A caminhada da _nossa_ vergonha


Gosto muito de livros que falam da Segunda Guerra Mundial, a ponto de ter juntado uma pequena coleção sobre o tema. O mais recente é "O dia D - A Batalha pela Normandia", de Antony Beevor, que fala da invasão aliada nas praias do norte da França até a retomada de Paris.

O livro é muito bom pra quem gosta do estilo. Como sempre, Beevor consegue intercalar relatos do dia a dia dos soldados nas trincheiras com as decisões dos grandes generais. Neste, algumas histórias sobre as chamadas colaboradoras horizontais dos nazistas me chamaram a atenção.

Muitas mulheres francesas se envolveram com nazistas e foram chamadas de colaboradoras. Algumas eram jovens e não sabiam bem o que estava acontecendo. Outras não tinham outro meio de subsistência fora o soldado alemão com quem passaram a dormir. Outras eram simplesmente prostitutas e não podiam se dar ao luxo de não aceitar nazistas entre os demais clientes.

Mas os motivos específicos não importaram quando os americanos e ingleses chegaram. As colaboradoras tiveram seus cabelos raspados e apanharam de membros da resistência francesa ou de civis que não se envolveram com os nazistas. Na maioria dos casos, os soldados americanos e ingleses assistiam a tudo sem interferência, considerando a situação como um "assunto privado" entre franceses que não dizia respeito a eles. Beevor escreve:

Depois da humilhação de ter a cabeça raspada em público, as tondues ("raspadas") costumavam ser exibidas pelas ruas, às vezes ao som de tambores (...). Algumas foram cobertas de piche, outras semidespidas, outras pintadas com suásticas. Em Baeyux, Jock Colville, secretário de Churchill, recordou sua reação a uma cena dessas. "Vi um caminhão aberto passar, acompanhado de gritos e vaias do povo francês, com uma dúzia de pobres mulheres na carroceria, o cabelo todo raspado. Estavam em lágrimas, a cabeça baixa de vergonha. Embora enojado com essa crueldade, refleti que nós, britânicos, não conhecíamos invasão nem ocupação há novecentos anos. Logo, não éramos os melhores juízes."

Quando li o trecho, lembrei-me imediatamente da caminhada da vergonha de Cersei Lannister, muito parecida com o relato acima. Cersei, como as francesas colaboradoras, não desperta nenhuma simpatia mas, independentemente disso, a cena é nauseante tanto no livro quanto na série. Em certo momento, você só quer que tudo acabe. É interessante que seja uma personagem tão detestada a sofrer uma punição tão severa, talvez pior que a própria morte.

Do alto de sua caneta, George RR Martin nos observa e pensa, rindo, "Não era isso que vocês queriam?". E quando a cena acontece nos sentimos culpados - mesmo sendo uma personagem totalmente inventada - por de alguma forma ser conivente (como os americanos e ingleses) enquanto Cersei chora, ouvindo "shame, shame, shame!"

quarta-feira, 9 de julho de 2014

8 de julho


Hoje li no twitter que a única lição que o futebol ensina é que não há nenhuma lição nele a ser aprendida, que ele é absurdo e hermético, que não serve como metáfora para nada. Não concordo e acho que, conceitualmente, qualquer coisa pode ser metáfora para qualquer outra coisa. Basta o ângulo certo, a visão mais apurada, um observador coerente. Como em "Muito além do jardim", até ideias muito simples se prestam a explicar raciocínios elaborados.

No Facebook, a Renata compartilhou o poema em linha reta, do Fernando Pessoa, muito apropriado ao dia de hoje:

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Hoje fomos ridículos. Estávamos no palco do baile de formatura, esperando a coroa, e fomos atingidos pelo balde de tripas de porco. Há uma certa beleza irônica, uma inversão do "pão e circo" tão repetido pelos antitorcedores de facebook. Se há um circo, hoje fomos os palhaços.

A paixão por futebol nos faz esquecer dos outros problemas, nos deixa mais alienados, mais crédulos e idiotas - mas também pode mostrar de forma drástica a nossa falibilidade. Nossa mortalidade. Mostra que nossa pompa não tem nada de realista. Se no futebol pensamos que somos grandes, também é no futebol que nossa grandeza foi esmigalhada diante de nossos olhos, pro mundo inteiro ver.

E como em todo espelho, não é destruindo o reflexo que se destrói o objeto. Acordaremos ridículos, amanhã e depois, e muitas outras vergonhas e alegrias viveremos na vida e no futebol.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Continue a aplaudir, continue a aplaudir.

Li, há alguns dias, uma história sobre Stálin muito interessante. Veio de um livro chamado "O Arquipélago Gulag", que fala sobre a vida nos campos de concentração da antiga URSS.

Conto de memória porque não consegui localizar o trecho. Stálin veio visitar uma cidade pequena e fez um discurso a autoridades locais. O minúsculo auditório estava lotado e, com os olhos do NKVD em todos, ninguém queria ser o primeiro a parar de aplaudir, terminada a fala do grandioso líder. Oito minutos depois, todos ainda aplaudindo. Dez, quinze minutos depois, ainda os aplausos. Um responsável por uma fábrica local não aguentou mais, parou de aplaudir e se sentou. Na mesma noite estava preso.

Voltando pro presente, você está falando bobagem no twitter e vê algumas pessoas denunciando isso e aquilo outro. Com maiores ou menores evidências de culpa, com gravidades maiores ou menores. E dizem que se você não denuncia, se não repercute, você é cúmplice (você é o inimigo?). E, claro, as circunstâncias e o peso são totalmente diferentes, mas o modo de raciocinar é idêntico ao da história soviética. Ou você está conosco ou está contra nós.

No mundo real, na rua, o status quo é machista, conservador, preconceituoso. Nas redes sociais, principalmente no twitter, a situação é bem diferente. A capacidade de mobilização dos grupos é impressionante. Há algum tempo, apareceu em um blog da Revista Pais & Filhos um post crítico contra uma suposta "moda da amamentação". A resposta foi imediata: pipocaram comentários avacalhando a autora, a revista, o texto, a vida, o universo e tudo mais. A mobilização continuou até que a revista retirou o texto e publicou um pedido de desculpas. Para algumas pessoas ainda assim não foi suficiente e as críticas continuaram, o que acabou rendendo mais alguns textões de facebook que evidentemente não li.

Não gostei do texto contra a "moda da amamentação", achei demagógico e pouco esclarecedor. Mas isso pouco importa. Não é suprimindo uma ideia que se divulga uma outra. O patrulhamento em turba causa cegueira: o texto estava num canto, em um blog, não na publicação principal da revista. Na mesma página, contei pelo menos 3 links falando dos benefícios da amamentação. Pouco importava.

Suprimir uma ideia é acreditar que o seu julgamento sobre aquela ideia é superior ao das outras pessoas. A ética é simples e o veredito é rápido: Eu, ao chegar ao site, que muito provavelmente não tinha visitado nenhuma vez antes, vou ler o texto criticando a amamentação e perceber que ele é errado - mas, outras pessoas podem não pensar assim, então vamos forçar a revista a eliminá-lo. Mais uma vez salvamos o dia, "não passarão". Eu sei o que é melhor pras outras pessoas; qualquer discordância deve ser perseguida e eliminada.

Como já escreveu David Butter, é a ética da biscoiteira:
É a ética da biscoiteira: a remoção do pote para negar a fome. Com o pote longe, a biscoiteira jura livrar meninos e meninas de uma ânsia capaz de levá-los à hipertensão, ao diabetes e às cenas de reportagens de TV sobre como os gordos estão em todos os lugares. [...]

Agora, a ética da biscoiteira só acalma a biscoiteira. A ética da biscoiteira é uma não-ética, por negar a escolha. Ela se ancora num egoísmo solidário: por vocês, eu, só eu, decido ser melhor assim. Em nome do combate a opressões, a biscoiteira traz uma nova opressão, a de seu juízo “emancipado”. Quer purificar fazendo sumir. Quer negar a violência violentando.

Costumo brincar que, em um futuro não muito distante, o último a compartilhar o texto do Sakamoto vai virar alvo da patrulha nas redes sociais. Tenho medo da brincadeira ter cheiro de realidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Nome do blog

Pessoal, vou mudar o nome do blog e, mais pra frente, também o endereço. Vai ser algo como http://daquidecimadomuro.blogspot.com

Estou trocando porque o nome e endereço antigos não faziam mais sentido. Quando comecei, escrevia com o Alexandre no colo... agora ele já está ali no quarto, brincando com seu Stormtrooper.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Elysium

Fui ver Elysium no domingo. Alguns aspectos são muito interessantes, o visual steampunk, as sequências de burocracia e violência tecnológica no início. Mas, no geral, achei o filme ruim.

(Spoilers extremos, não leia se não quiser estragar o filme. Infelizmente, se você não viu, provavelmente não vai entender muito bem meu texto.)
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Jesus 2.0 agora com exclusiva munição antidroide

É fácil enxergar Elysium como um filme de perspectiva cristã muito forte. O mundo é um lugar terrível e inóspito, o paraíso, a estação espacial Elysium, fica no céu. Para alcançar o céu, os pobres precisam de um salvador que entrega a sua vida em troca da justiça pelos outros, um Jesus moderno que usa um exoesqueleto no lugar da cruz. Na história não se conta como chegamos à situação atual, mas presume-se facilmente pelo enredo que aconteceu devido à ganância, individualismo, superpopulação.  Fica a impressão de que os ricos roubaram o céu dos pobres.

Aí que começam os problemas do filme. Qual é o vilão de Elysium? Seria o bandido agente mercenário? Ele também é pobre, um qualquer, uma peça na engrenagem. Tem também a personagem da Jodie Foster, mas como vilã, deixa muito a desejar. Não há nenhuma discussão entre ela e o protagonista. Não se conhecem, nem se vêem como inimigos.

Elysium não tem um vilão facilmente identificável porque os problemas de seu universo são causados por todas as pessoas. Não seria um problema, a princípio, não haver um vilão - mas só faz sentido haver um protagonista que resolva todos os problemas se há um vilão causando todos os problemas. O Batman só existe enquanto existe o Coringa ou outro que o substitua. Em Elysium, quem é o vilão que causa a pobreza, são os ricos? Matar os ricos não transforma os pobres em ricos, infelizmente. E, pior ainda, quem é o vilão que causa a superpopulação?

É de uma ingenuidade desconcertante acreditar que problemas coletivos (como ganância, individualismo, superpopulação) são resolvidos por uma pessoa, sozinha, com uma canetada. Não dá pra dar reboot no mundo, não é assim que funciona. Mesmo dentro das regras do capitalismo, problemas causados por todo mundo requerem soluções coletivas, discussão, conscientização.

"Quem libertou os escravos?" pergunta a professora, e os alunos, felizes e inocentes, dizem que foi a princesa Isabel. Mas e o processo político-social que aconteceu antes da princesa Isabel assinar a lei? E a pressão dos abolicionistas? E o embargo inglês? Tem certeza de que foi só a princesa, mesmo?

Pra ir mais fundo, Elysium não resolve os problemas que propõe, nem mesmo com o pé de cabra do mártir salvador. No final, aparentemente todas as pessoas ganham acesso à imortalidade, o que iria piorar o problema da superpopulação. A estação Elysium é um lugar pequeno, restrito... quantas pessoas caberão lá? Vale a pena todo mundo viver num lugar sujo e superpopulado, na Terra ou no Céu, pra sempre, cercado de pessoas falhas, gananciosas?

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Tretas e mais tretas


A treta, meus amigos, ela nos persegue. Ou melhor: eu dou quirera pra ela, ela cresce e se alimenta da minha disposição.

Durante essa semana, vi na página de um amigo no facebook um comentário sobre uma pesquisa online feita com mulheres sobre cantadas de rua. A pesquisa teve um resultado avassalador demonstrando a repulsa generalizada das mulheres por cantadas. Pensei um pouco e fiz um comentário nessas exatas palavras, no post no facebook:

"Sou super simpático com a causa e tb acho que as coisas têm que mudar, mas a pesquisa não tem valor estatístico nenhum. Quando você faz uma pesquisa num site feminista você tem a resposta do público daquele site feminista, não dá pra levar isso como se fosse a verdade absoluta pra todas as mulheres.
Eu acredito (não tenho certeza) de que se a pesquisa fosse feita na rua os resultados seriam bem diferentes. O que não quer dizer que cantada de rua seja algo a ser incentivado."

Não vou colar a briga toda aqui, mas foi razoavelmente longa. Eu repetia que concordo com o repúdio às cantadas mas que não acho que dê pra dizer que a opinião representa a totalidade das mulheres do Brasil. Disseram (com base nessa frase citada) que eu acho que a opinião das feministas vale menos que a das mulheres "normais". Disseram também que eu não tinha empatia, e era umbiguista e self-entitled. Depois fizeram um post de blog com prints do que eu escrevi, me chamando de mascu, de pseudo feminista, de ignorante, arrogante, de cético de conveniência etc etc etc.

Não me considero nenhuma dessas coisas, mas se perguntassem pra Hitler, ele também diria que é um cara legal, certo? Mas o que eu sou ou deixo de ser não cabe aqui. Como disse ontem um amigo, não se explique - pros amigos você não precisa, e os inimigos não vão acreditar.

Voltando à pesquisa, um texto muito mais bem escrito do que meus comentários foi publicado pelo Carlos Orsi (coloquei os links lá no final). No texto dele, a meu ver, só faltou uma discussão sobre classe, cultura e renda. O que é aceitável em um ambiente deixa de ser aceitável em outro, o que é considerado normal em baile funk é absurdo se for feito em um café da vila magdalena. De qualquer forma, reitero que concordo com o espírito todo da campanha, apesar de ainda achar que o viés estatístico é óbvio e que não pode ser divulgada como se fosse a opinião de "todas as mulheres". Vale muito, apesar disso, como método de chamar a atenção.

Agora, independentemente do que eu sou ou deixe de ser, cético de conveniência, ignorante ou arrogante, os movimentos sociais precisam de auto-crítica. Não dá pra aceitar que não se possa fazer um aparte qualquer sem ser chamado de masculista. Não dá pra aceitar que uma garota pegue meu nome e minha foto, sem autorização, e coloque como exemplo de masculismo por algo tão menor. Eu conheço minhas próprias atitudes, sei o que penso e o que valorizo na minha vida e na educação do meu filho, mas ela não sabe. Ela não sabe e resume, por causa de um comentário técnico sobre o viés estatístico da pesquisa, todo o meu pensamento em meia dúzia de adjetivos enlatados. Ela disse no post no blog que tem um "olhar treinado" por movimentos sociais. Bom, eu estou relativamente próximo de duas ou três classes de movimentos sociais e, a cada dia que passa, me sinto menos apto a tecer julgamentos rápidos por causa de meia dúzia de frases. Que Odin me livre disso.

(Na época do semdeusnocoração eu também fazia prints e também fazia patrulha, mas tinha o cuidado de apagar TODOS os nomes e borrar todas as fotos.)

Mais: como pode ser que alguém educada, consciente, inteligente e escritora possa distorcer as minhas palavras a ponto de afirmar que estou dizendo que feministas valem menos do que mulheres? E pior, como é que um comentário desses ganhe DEZOITO curtir logo de cara. Não é um caso isolado, é a regra. Deixa de ser um joão qualquer com má interpretação de texto e/ou desonestidade: é o caso de alguém inteligente, educada, considerada uma das líderes do feminismo na internet deliberadamente distorcendo as palavras da dissidência e jogando pra turba enraivecida, que clica no curtir sem pensar duas vezes.

Como disse lindamente a Flavia Durante no twitter, "Se você quer ser anti comportamento de manada mas aceita tudo que um grupo fala sem questionar você também faz parte de uma manada."

Me recuso a ter qualquer opinião só porque as pessoas a quem admiro e respeito julgam que é o correto. Prefiro pensar por mim mesmo.

A garota do post do blog disse que não vai publicar meus comentários porque não tem tempo para respondê-los - o que chega a ser surpreendente, já que ela arrumou tempo para dar print no que eu tinha dito no facebook. Mas não vou linkar mais aquela joça, o que ela merece é o meu silêncio.

Aliás, da próxima vez já prometi a mim mesmo não dizer nada, desde o começo. Deixa eles falando, deixa a pesquisa enviesada rolar como verdade pronta. Melhor assim, poupo meu tempo.

Textos relevantes sobre o assunto:
Carlos Orsi, sobre a pesquisa e uma reflexão posterior
Cynthia Semiramis sobre as cantadas, o fluxograma, e contexto
Aline Tdbem, uma reflexão mais profunda e crítica sobre a campanha toda. Muito inteligente e muito polêmico

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Twitter

Estava pensando em fechar minha conta no twitter há algum tempo e, semana passada, a sensação ficou mais forte depois de me tocar o quanto, ainda, perco tempo lendo opiniões que a) não me trazem nada de novo e, além disso, b) me deixam irritado.  Uma das minhas resoluções de ano novo foi evitar esse tipo de desperdício de tempo e o consequente desgraçamento da cabeça, então tenho que me policiar mais.

A sensação me veio quando li no Musashi uma passagem que dizia, lembrando de modo grosseiro, "esqueça os galhos, esqueça as folhas, lembre-se do tronco". Não vou postar a passagem toda aqui, mas a ideia é dispensar o supérfluo, o inútil, o vão.

Hoje no carro ouvi na rádio uma música que me fez pensar exatamente no que é o twitter, uma mente multifacetada de polipersonalidades coletivo-discordantes e altamente esquizofrênicas. É um tanto parecida com aquela dos dez mil anos atrás do Raul, mas essa é recente, uma versão de um rock uruguaio, de uma banda chamada Vespas Mandarinas.

Ainda não resolvi fechar minha conta de twitter, mas da música eu gosto:

Já fui ético, antipático, fui poético, fui fanático
Fui apático, fui metódico, sem vergonha, fui caótico
Eu já li paulo coelho, eu já escutei tudo que era conselho
Eu já preguei o evangelho, cheguei a achar que eu era velho

Já fiz tanta coisa que nem me lembro do que eu era contra ou fui a favor
O que me dava prazer, hoje só me dá dor
Nunca aprendi o que é o amor

E ouvi uma voz, que diz: "não há razão"
Você sempre mudando já, não muda mais
E já que estou cada vez mais igual
Não sei o que fazer comigo



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A ponte

Sonho com um deserto, quente e interminável. Ando por algum tempo, chego a uma plataforma. Na ponta da plataforma tem uma ponte, longa e estreitíssima, que leva a outra plataforma, onde o deserto continua. Sob a ponte, o solo é tão distante que não é nem possível enxergá-lo, daquela altura.

Pessoas me dizem que tenho que cruzar a ponte. Mas eu não quero, eu tenho medo, porque a ponte é longa e estreita, o vento é forte, é muito alto, e vou me apavorar. Tenho vergonha porque sei, instintivamente, que não vou conseguir atravessar em pé, que vou ter que me debruçar, me arrastar pra passar, e vão rir de mim.

Mas me pressionam, tenho que cruzar, tenho que ir. Dou um passo, dou outro, sinto o vento tentando me derrubar, e não sei por quanto tempo ando (ou me arrasto) até perceber que a ponte é interminável, e que a queda é inevitável, me equilibrar é adiar a certeza do que vai acontecer.

Em algum momento, acordo.

Passo alguns dias com o sonho na cabeça. Hoje me toco de que a ponte é a vida, atravessar a ponte é viver.

domingo, 5 de maio de 2013

Jogos de frustrações

Terminei no final de semana o último volume publicado de "Guerras dos Tronos". Gostei, apesar de em vários momentos me sentir descontente com os rumos que tomam a história. Atenção: os trechos com spoilers sérios, com exemplos do que estou dizendo, estão escritos em branco com fundo branco. Para ler, é só selecionar o texto.

RR Martin quebra algumas regras dos épicos de fantasia ao compor sua história. Por um lado, isso dá uma imprevisibilidade ímpar, uma vontade tremenda de saber como as coisas vão acontecer. Por outro lado, algumas circunstâncias me deixaram profundamente frustrado com a  história.

Em qualquer história, principalmente em épicos de fantasia, quando uma personagem se destaca, quando há várias e várias páginas sobre suas vitórias e suas batalhas, ele se transforma em um herói para o leitor. O público nutre expectativas sobre como ele irá superar seus problemas e alcançar redenção. É permitido que o herói morra, é permitido que ele falhe enquanto busca seu objetivo. Mas não é permitido que ele se acovarde em um momento decisivo, que hesite, que morra com um tiro nas costas em uma situação banal. Martin mata heróis nas entrelinhas, com flechas vindas de direções aleatórias, ajoelhados, hesitantes, sem reação, sem vingança, sem saber bem por que estão morrendo.

Quando Frodo sai de Valfenda, ele tem um objetivo: destruir o Anel. Sua missão tem basicamente dois resultados possíveis: ou ele atinge seu objetivo (e sobrevive, ou morre), ou algum vilão consegue impedí-lo, e o problema teria que ser solucionado de alguma outra forma.

Trecho em branco: Jaime sai de Winterfell com Briene para negociar com Tyrion por Sansa. Quando chegam, Tyrion não está disponível, Sansa não mora mais lá, e a missão não faz mais sentido. Na história de RR Martin, Frodo chegaria até o lugar indicado e a montanha não existiria mais, o Anel seria de plástico, e Sauron teria sido substituído por um novo governante nem-bom-nem-mau.

A morte de Rob, pra mim, foi a parte mais frustrante de todo o livro. Ele morre acreditando que seus irmãos foram mortos por Théon, sem oportunidade de vingança, nem contra ele, nem contra os Lannister. Morre acuado, sem reação, sem puxar a espada, como um ratinho em uma ratoeira. Sem saber por quê, sem saber como, sem elucidação, sem redenção.Não há como isso se resolver por futuros livros - ele simplesmente morreu feito uma mosca. Fim do trecho em branco.

É claro que a história de Martin se aproxima mais da realidade - afinal, o universo não tem nenhum compromisso de elucidar as situações antes de matar os mocinhos. Na realidade, o Dr. No mataria o James Bond antes de contar detalhadamente sobre seus planos. Mas de realidade já estou cheio, e de fantasia, eu espero um pouco mais.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Caretice educacional



Hoje a professora do meu filho de cinco anos me chamou pra conversar porque ele aprontou na escola. Fiquei consternado ao saber o que havia acontecido: a pedido de um colega, ele tinha tirado a roupa e então desfilado e dançado pelado na frente dos amigos e amigas.

Passei "aquela" reprimenda, disse que ele tinha me envergonhado, que tinha se comportado como um bebê e etc. Mas depois de notar a chateação que causei nele, me toquei de que o que havia acontecido era muito menos grave do que parecia. Na verdade, de acordo com meu próprio código de ética, nada impede que as pessoas andem peladas por aí sem que sejam reprimidas por isso. Me senti hipócrita. Difícil reconhecer, chega a ser doloroso, mas é real: em várias oportunidades brinco com ele em situações assim, antes do banho, ou na hora de trocar de roupa.

Claro, ele fez com o objetivo de fazer graça. Não foi pra chocar, não foi pra irritar. Ele faz porque em casa é aceito. É óbvio que nem todos os comportamentos aceitos dentro de casa são aceitos em público, e é claro que mesmo as brincadeiras mais inocentes tem hora certa pra serem aceitas (até a piada do tomate atropelado pelo caminhão causaria caretas em um velório). Mas qualquer outra brincadeira fora de hora receberia uma bronca muito menor do que andar pelado pela escola, tanto por parte da professora quanto de mim.

Eu poderia simplesmente dizer que os pais dos amigos não achariam legal, pra não fazer mais e pronto, ele iria entender. Mas minha bronca foi muito mais vigorosa. Excessivamente vigorosa.

Me toquei de que, nós, pais, acabamos  reprimindo esse comportamento porque ele nos envergonha, por que não é aceito pela comunidade em que estamos inseridos. Porque fomos treinados para repelir esse tipo de comportamento em público desde a mais tenra infância, como foram também nossos pais e os pais de nossos pais ( é muito mais comum e aceitável socar o amiguinho do que ficar pelado na frente dele, tanto que isso nem geraria comentário da professora). Me toquei que, devagar, sem pensar, colocamos nos filhos a culpa e a vergonha que participam tão fortemente de nossos julgamentos.  Me toquei de que assim, um passo de cada vez, os filhos ficam mais aceitáveis, mais quadrados, e o mundo fica mais careta e sem graça - como nós também somos.