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Deh tem um amigo que, devido a seus esforços e realizações, se tornou uma espécie de lenda caseira. Como o mundo é um lugar muito pequeno, vamos chamar esse nosso amigo de H.
H é um poeta - e aqui chamo de 'poeta' qualquer pessoa que escreva alguma coisa (ou qualquer coisa) e chame de 'poesia'. Vejam, eu não sou nenhum crítico literário, mas podem acreditar: o cara é ruim, ruim mesmo. Pior que os Vogons. Pior do que os Azgoths de Kria, que, durante um recital por seu poeta mestre Grunthos, O Flatulento, contaram na audiência quatro mortos por hemorragia interna e um sobrevivente que escapou roendo completamente a perna esquerda.
Mas tudo bem, H nem precisa ser
realmente um péssimo poeta. Basta o exemplo: imaginem que exista um poeta terrível sob todos os aspectos e a esse poeta terrível chamemos de H. H acredita sentir o subliminar, ouvir o inaudível, pensar o impensável - mas, na prática, seus poemas são só uma coleção intensa de chavões moralistas mais ou menos socialistas, mais ou menos rimados, mais ou menos organizados, mais ou menos. Mais menos do que mais.
Estranhamente, algumas pessoas parecem realmente gostar da poesia de H, e consideram-na, talvez, inteligente, perspicaz. H vive espalhando sua obra para Deus e o mundo, a quem ouvir possa. Ele se
orgulha dela. H chegou a lançar um livro, se não me falha a memória. No mínimo foi um dos autores de uma coletânea de escritores locais.
A Deh e eu conversamos algumas vezes a respeito e tínhamos opiniões divergentes. Ela achava, apesar de concordar que a poesia de H era lamentável, que ele merecia reconhecimento pelo esforço e por acreditar no que faz. Eu argumentava que esforço por si só não vale nada e que, julgando pela resultado, então o esforço dele não tem mérito nenhum.
De alguns dias pra cá, fiquei pensando no assunto e fui mudando de opinião. Afinal, o esforço dele não me significa nada, já que a poesia dele não me significa nada. Mas para ele mesmo, ou para alguém que goste da poesia, o esforço significa muita coisa.
Imaginem, por exemplo, que o J quer entrar no Livro dos Recordes fazendo embaixadas mas que sua contagem máxima de embaixadas consecutivas é três. Imaginem que nosso amigo J passe várias horas do dia preocupado com isso, treinando, e que depois de alguns anos consegue, em um momento ímpar de destreza, fazer quatro embaixadas seguidas. Imaginem que ele fique sinceramente feliz com isso. Imaginem que a mãe, o pai e os irmãos de J fiquem também sinceramente felizes com o progresso dele ('Agora só faltam quatro milhões seiscentas mil e dezenove pra bater o recorde!!!') e que alardeiem isso para todos os conhecidos. Quem tem o direito de falar contra isso? Eu? Eu não. Eu sorriria e diria: 'Que bom!'.
O mundo precisa de muitas pessoas que tentem e falhem para sobrarem algumas que tentam e conseguem. Durante essa semana estava lendo algo a respeito de Schulz, o criador dos Peanuts, que dizia uma coisa mais ou menos assim: Diga o nome de três ganhadores do prêmio nobel de medicina. Difícil. Agora diga o nome de três professores do primário que marcaram sua vida. Muito mais fácil.
É claro que resultados valem alguma coisa. Valem muita coisa. Mas o que vale muita coisa para a sociedade pode valer pouca coisa para os indivíduos, e vice-versa. E praticamente nada pode ser reduzido somente a um resultado.
Eu tento manter um blog, não é o pior que poderia ser, e também está longe de ser o melhor que eu consigo imaginar. De um jeito ou de outro, me divirto com ele. E gosto de pensar que um dia meu filho vai poder ler o que escrevi e saber que, nesse dia, nessa hora, eu estava pensando exatamente nisso.
Por isso a fala de Boris Casoy, e a posterior defesa da Barbara Gancia, me soaram tão ridículas. Não existe uma 'escala do trabalho', uma escada imaginária onde podemos subir, degrau a degrau e sair do substituto de gari para chegar ao presidente da república. O cara que retira o meu lixo tem impacto na minha vida muito maior do que o âncora de um telejornal a que eu nunca assisto. Essa pirâmide que imaginamos para entender o mundo é só uma abstração. Para o filho do gari, para a esposa do gari, o 'Feliz ano novo' dele vale mais do que o de qualquer outra pessoa.