sexta-feira, 9 de abril de 2010

O bêbado e a borboleta

Já faz algum tempo que eu me interesso por situações aparentemente imprevisíveis. Não falo daquele colega de trabalho que levanta, dá um soco na mesa e se demite pra ir ser surfista; falo de coisas que aparentemente deveriam ser previsíveis mas que não são. Por exemplo, a altura da coluna de água de uma fonte (se você já parou para olhar com detalhe algum dia, vai notar que é algo absolutamente errático) ou a densidade populacional de bactérias em uma cultura (dada a população em um tempo x, é praticamente impossível prever a população em um tempo x+1). Até mesmo eventos que parecem regulares demonstram ter grandes variações quando observarmos mais de perto. Imagine a dificuldade do surfista em prever qual a altura da próxima onda.

Por isso me interessei tanto pelo livro O andar do bêbado, do físico Leonard Mlodinow. A ideia dele era mostrar, ao longo da leitura, várias situações em que não consideramos corretamente os impactos das muitas influências do acaso e calculamos mal as probabilidades em nossa vida cotidiana. Um exemplo clássico é o Problema de Monty Hall (sobre o qual até já fiz um post aqui), em que nossa intuição falha miseravelmente.

Algumas partes do livro são realmente boas, especialmente os trechos em que o autor cita pesquisas humilhantes para enólogos (que em testes cegos falham ao diferenciar um vinho de outro) e gerentes de fundos de ações (que, acreditem, têm todo ou quase todo o seu desempenho relacionado ao simples acaso). Apesar disso, gostei menos do livro do que achei que fosse gostar. O autor fala mais de erros humanos no cálculo de probabilidades do que do acaso em si, e acaba não se aprofundando na questão (interessantíssima) do que é que, afinal, acaba causando a diferença entre o estatisticamente esperado e o realmente observado. A física quântica só é citada de passagem, sem entrar em detalhes sobre o emaranhamento, o princípio da incerteza e a interpretação de Copenhague com o já famoso gato de Schrödinger. Uma pena. Faltou também uma demonstração mais apurada de como eventos, mesmo muito improváveis, acontecem dada quantidade de tempo e tentativas suficientes.

Hoje, enquanto pensava no que iria escrever nesse post, invadi uma preferencial e quase derrubei um motoqueiro. O motoqueiro seguiu e eu vi quando, menos de um minuto depois, outro carro invadiu a preferencial seguinte e derrubou o mesmo motoqueiro. Qual é a chance disso acontecer em um espaço de tempo tão curto com a mesma pessoa? Mínima, com certeza. E qual é a chance de eu observar esse evento absolutamente improvável enquanto pensava em escrever sobre eventos improváveis no blog? Absolutamente mínima. No entanto, muitos motoqueiros podem ter a preferencial invadida; alguma hora alguém dá o azar. E a probabilidade de eu observar algum evento improvável em um dia qualquer não é tão pequena a ponto de ser desprezível, ainda mais quando estou procurando por um. E por aí vai.

É isso que me faz rir quando leio sobre essa falação sobre as 'variáveis perfeitamente ajustadas para permitir a vida na Terra'. E se fosse em outro lugar, as variáveis seriam ajustadas para permitir a vida nesse lugar? E se você tiver um bilhão de mundos, qual a chance de algum deles ter as possibilidades corretas para haver vida? É claro que o nosso universo poderia ser totalmente impróprio para a vida, mas nada garante que não haja outros universos diferentes por aí - muitos com vida, muitos sem vida. Isso sem pensar no fato de que ninguém, ninguém mesmo sabe como calcular a probabilidade de um universo ter vida ou não. Estão só brincando com números.

Pelos idos de 1930, Einstein e Bohr discutiram através de artigos as partes 'aleatórias' da Mecânica Quântica. Einstein acreditava, resumindo porcamente, que Deus não jogava dados, que a Natureza é determinista. Bohr acreditava que a Natureza não se importa com os mecanismos que conhecemos para descrever a realidade. A Natureza não conhece dados, não conhece as Teorias, a causalidade, a lógica, o princípio da não-contradição. A Natureza pode ser incerta, mesmo que isso contrarie nossa lógica, nossa filosofia; apesar de Zenão provar o contrário, o movimento existe (e disso se fala em 'O andar do bêbado').

Acreditar que não existem eventos realmente imprevisíveis (e ser totalmente determinista) é acreditar que todas as nossas ações estão pré-determinadas, e a vida, o universo e tudo mais são um grande rolo de filme sendo projetado com uma história em que não existe nenhuma possibilidade de mudança. E sabem quem acreditava nisso? Nietzsche. Que mundo pequeno.

4 comentários:

Anunciação disse...

Pois não é?Que mundo pequeno!

Henrique Rossi disse...

Realmente as variáveis que te conduziram à produção de um texto verdadeiramente denso e profundo estavam perfeitamente ajustadas... rs..

Mas acho que você reconheceu a solução correta quando disse que "ninguém mesmo sabe como calcular a probabilidade de um universo ter vida ou não. Estão só brincando com números".

Mudando de assunto, Einstein realmente parecia convencido de que há ordem e elegância nos fenômenos naturais, não? Ainda que isso não tenha nada a ver com coisas como "o sentido da vida", ou com as variáveis supostamente ajustadas com perfeição que permitiram a vida na terra, concordo plenamente com ele.

André T. disse...

Mudando de assunto, Einstein realmente parecia convencido de que há ordem e elegância nos fenômenos naturais, não?

Sim, com certeza! Einstein acreditava que existe uma verdade por trás das coisas que observamos, as leis perfeitas por baixo daquilo que conseguimos observar. É bem bonito, por sinal :)

Anônimo disse...

Se você ainda não leu acho que iria gostar de ler 'teoria do caos' de james gleick.
adelson