Saiu na semana passada a condenação dos pais que
perderam a filha ao tratá-la somente com Homeopatia. O assunto voltou à blogosfera e se espalhou rapidamente. Dez anos de cadeia.
Gostei particularmente da coluna do
Contardo Calligaris, que saiu na Folha de SP, mas que acabei lendo em um comentário no blog do
Henrique:
Se me coloco no lugar dos pais de Gloria, não consigo imaginar uma crença, por mais que ela possa ser crucial para mim, que resista à visão do corpinho de minha filha transformado numa ferida aberta e purulenta.
(...)
Se fosse testemunha de Jeová, e minha filha precisasse de uma transfusão (que a religião proíbe), abriria imediatamente uma exceção. Mesma coisa se fosse cientologista, e minha filha precisasse de ajuda psiquiátrica. Sou volúvel e irracional? O fato é que tenho poucas crenças (provavelmente, nenhuma absoluta), e acontece que, para mim, a razão é uma prática concreta, específica: um jeito de pesar e decidir em cada momento da vida.
Uma coisa a se notar é que pessoas como o Contardo (e eu, e muitas outras) nunca se associariam a grupos que exigem comportamentos irracionais como esses. Mas o problema, afinal, é que as pessoas se prendem fielmente a crenças indiscutíveis. Não estou falando sobre não ter certezas; estou falando de estar sempre reavaliando as certezas usando a razão e a realidade.
De que te vale a convicção de que Homeopatia funciona, diante da filha morta?
De que te vale a convicção de que Homeopatia não funciona, diante de um quadro que talvez pudesse ser melhorado pelo uso dela?
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Não acredito, assim como o
Schwartsman, que Homeopatia funcione mais do que bolinhas de açúcar. Mas, diante do que está sendo discutido, a minha opinião não importa.
Mesmo assim, um código de ética mais restrito deveria ser discutido entre os homeopatas. Deve haver recomendações explícitas sobre procurar um médico 'alopata' (esse termo é ridículo) caso o tratamento não esteja funcionando, como bem apontou o
Kentaro Mori. Esse tipo de proposta passou longe da discussão sobre o caso, e a Homeopatia saiu ilesa.
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O Henrique vê uma 'ditadura do relativismo' no texto do Calligaris. Eu não vejo. Eu vejo uma pessoa racional fazendo qualquer coisa (sem, é claro, ferir outras pessoas) para salvar um filho. É o que eu faria.
O que eu vejo, do meu lado, é uma 'ditadura da convicção'. Vejo a volta da velha conversa de que
a falta de religião leva o mundo para o buraco, gente importante falando isso. Vejo muita gente comprando a historinha pra boi dormir do 'Eixo do Mal', como se os interesses de todas aquelas pessoas fossem mesmo 'fazer o mal'. Vejo empresas valorizando candidatos e funcionários que tem 'certeza' sobre o que vão estar fazendo daqui a cinco, dez anos (me perdoem, mas eu não sei, e me sinto completamente tranquilo com relação a isso. O fato de eu me adaptar e traçar objetivos viáveis de prazo curto não me faz um mau profissional, tenho certeza.). Ouço conversinhas sobre 'O Segredo', a 'certeza' materializando os desejos mais viajados. E tem gente que acredita. Gente instruída.
Mudar de ideia não é algo intrinsecamente errado. Mudar de ideia pode significar que você avaliou outro lado da questão e acreditou que havia mais realidade daquele lado. Acho isso bonito - você, de fato, aprendeu algo. Quem merece mais respeito: quem muda de ideia diante de argumentos plausíveis ou quem mantém sua opinião não importa o que aconteça em contrário? (Até comprei
um livro sobre isso. Grandes nomes que mudaram de opinião sobre um ou outro assunto. Tem até o Dawkins.)
Convicções não ensinam nada. Convicções se auto-protegem, são fechadas em si mesmas, e não dão margem a diálogo. E como já disse Goethe:
Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida.