segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Barkley Marathons


Eu não gosto de corrida, nunca gostei de correr. Mas eu gosto muito de documentários, e gosto muito de histórias de pessoas tentando e às vezes conseguindo o impossível. Por isso recomendo a todos o excelente "The Barkley Marathons", talvez o melhor filme que vi esse ano - não tanto pelo que ele é, mas mais pela forma que me acertou. Tem na Netflix.

Vou explicar bem brevemente pra não estragar nada. Um cara organiza uma ultramaratona que, nos primeiros dez anos, ninguém conseguiu completar. O documentário é sobre um ano da corrida e sobre esse cara. O organizador mistura umas frases de sabedoria estranha (que é mostrada sem ostentação, mais como se fosse algo natural, não forçado) com um sadismo cômico que nem tenta disfarçar. Pra entrar na corrida, você precisa ser avaliado, pagar 1,60 e um item que o organizador esteja precisando no momento (uma meia, uma camisa de flanela).

"Barkley Marathons" é interessante por ser um show do que é a alma interior dos esportes, algo que só vemos em pequenas fagulhas nos futebóis da vida: o desejo de tentar ser mais e melhor do que si mesmo e os outros. O desejo de tentar e fazer o que é considerado impossível e a admiração que isso desperta.

domingo, 9 de outubro de 2016

Marília


Tendo me mudado pra Marília ontem, achei que era uma boa hora pra ressuscitar esse espaço. Quem sabe não retomo alguma regularidade? Veremos.

- Marília me lembra muito de São Carlos, no tamanho e nos espaços em branco no meio da cidade. Marília tem vales difíceis de popular, além de uma linha de trem inconveniente que corta a cidade em duas. São Carlos tem (ou tinha) buracos não populados em áreas bem valorizadas da cidade, por conta de disputas judiciais e especulação imobiliária. Os cinemas das duas são ruins, mas acho que o de S. Carlos, back in the day, era pior.

- A primeira imagem que me vem à cabeça quando penso em S. Carlos é a Praça da XV, um dos centros culturais da cidade. Pra Marília a imagem é essa da foto, a cidade atrás da curva, sinal de que estava chegando (invariavelmente atrasado) para trabalhar. É uma imagem de movimento, de passagem, que espero mudar em breve. De qualquer forma, a sensação de avistar os prédios na colina sempre foi muito boa.

- As pessoas até agora foram muito educadas em todas as conversas, mas sinto que falta uma gentileza genérica para situações onde a generosidade não tem rosto, quando você não está vendo com quem está sendo educado. Um certo espírito vingativo no trânsito, do tipo "você me ultrapassou, então não vou te deixar entrar na minha faixa". As bandejas sujas nas mesas do shopping, poucas pessoas se dignando a levá-las até o lixo (deve ser um sacrifício extremo). E aqui em Marília também temos um fenômeno de senciência bizarro que nunca vi em cidades ligeiramente maiores: as mesas no horário de pico são ocupadas por molhos de chaves, óculos, blusas e bolsas, que aparentemente também precisam se alimentar.

- Eu diria que falta um pouco de capitalismo aos marilienses; cobrar estacionamento no shopping provavelmente resolveria o problema. Mas essas seria uma solução preguiçosa.

- Marilienses gostam muito de Amaroks (a caminhonete tão grande que mais parece um caminhão, ali na vaga do supermercado pra levar a esposa e o filhinho pra comprar pão). E cebolinha. Cebolinha no sushi, cebolinha na pizza de calabresa, cebolinha no temaki, cebolinha cebolinha cebolinha.

Apesar de toda a implicância, gostei da cidade. E me sinto quase obrigado a gostar, depois de ser recebido tão bem, saindo de uma fase tão ruim. Valeu Marília, tomara que nos entendamos por um bom tempo.

domingo, 20 de março de 2016

My Beautiful Broken Brain

My Beautiful Broken Brain (disponível na Netflix) é um documentário sobre o primeiro ano da recuperação de Lotje Sodderland, roteirista de 34 anos, depois de um derrame. Com problemas de leitura, fala e memória, Lotje começa a gravar toda a sua rotina no telefone como forma de fazer um registro e não ter sua vida apagada em seus lapsos de consciência.

O filme tenta mostrar o mundo pela visão da protagonista, uma profusão muito confusa de cores e sons. Um semi-sonho estranho, como um filme de David Lynch, onde alucinação e realidade se misturam, os instantes e a percepção de tempo se alongam e distorcem. Lynch acaba se tornando produtor do documentário depois de insistentes mensagens de Lotje.

Além da já esperada história de superação e percalços, gostei de como Lodje se volta pra dentro de seu eu como forma de reaprender a viver, não levando em conta suas limitações, mas expandindo sua consciência. Como numa citação de Lynch que aparece duas vezes: "Within your own self is a treasury, an ocean of pure bliss, consciousness, intelligence, creativity and love". Lynch é adepto de meditação e acredita que através dela podemos encontrar níveis mais altos de consciência e paz. Em tempos tão cheios de revolta e agressividade, a ideia parece estranha como uma flor em meio a escombros.

Outra coisa interessante é que a memória auxiliar de Lotje - seu celular gravando constantemente - e o próprio documentário são um contraponto a visões negativas sobre as relações entre sociedade, cultura e tecnologia disseminada. O processo de gravar sua rotina e transformar os vídeos em um documentário se torna parte de seu processo de recuperação, além de ser uma experiência rica pra quem assiste. Não precisa ser como em Black Mirror. Não podemos ser otimistas demais, mas também não é preciso ser tão pessimista.

domingo, 13 de março de 2016

Sobre 13/03


Vamos brincar de onde está Wally?
Encontre a limousine; encontre a babá empurrando o carrinho; encontre o cartaz pedindo intervenção militar. Exponha; fale como se fosse a regra, ignore as proporções e você vai ter um argumento de culpa por associação prontinho.

Mas se vale a culpa por associação, também podemos acusar os defensores do governo de estarem aliados a grupos extremamente retrógrados da CUT e do MST, que apoiam ditaduras de esquerda abertamente. Ou podemos falar de Lula, que tirou fotos dando a mão a Ahmadinejad, anti semita notório, e também chamou o ditador Kadafi de amigo e irmão para o mundo inteiro ouvir. E claro, nenhum governista gosta de ser chamado de bandido, ainda que o partido do governo dificilmente passe uma semana sem ter algum de seus membros levado pra cadeia.

(Não acho que quem defenda o governo possa ser chamado de bandido, mas também não acho que quem esteja contra possa ser chamado de fascista. You can't have it both ways.)

A associação é um instrumento, uma ferramenta de retórica usada com um objetivo simples: deslegitimar o protesto. As pessoas não estão preocupadas de verdade com a dignidade da babá, ou não exporiam sua imagem. A babá vira um objeto duas vezes, primeiro pelo empregador utilizando seu trabalho estranhamente uniformizado em um domingo, em um evento onde a presença de uma babá é no mínimo estranha; e segundo por quem posta a foto e a chama de escrava, sem lhe dar voz, sem saber de sua história e expondo seu rosto, com óbvios objetivos políticos.

Li alguém no twitter falado de Churchill, que ilustra bem como é fraco o argumento da associação. Churchill era bom em antever os objetivos dos outros e descrevia o mal que via em Stálin enquanto os presidentes americanos ainda o adoravam. Mesmo assim, se uniu a ele para derrubar Hitler. Churchill não passaria por um argumento de culpa por associação, mas passou no teste da história; você pode não gostar dele, mas se ele não tivesse existido e tomado as decisões que tomou, é possível que hoje estivéssemos todos falando alemão.

Não me sinto culpado por ser abertamente contra o governo, mesmo que outras pessoas com ideias que não condizem com as minhas cheguem à mesma conclusão. Como disse Eduardo Jorge, a rua é larga.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O despertar da Força

(Spoilers levíssimos, leia sem medo)

Há algum tempo atrás me surpreendi, ofendido, com algumas pessoas (provavelmente publicitários) falando de Star Wars em uma sorveteria. "A Marca", eles diziam. "O Produto", e a conversa girava em torno desse aspecto. Seria inocente da minha parte crer que um fenômeno tão grande de cultura pop escapasse de uma visão puramente mercantilista. Mas Star Wars é muito mais que um produto vendável.

Não vi a trilogia original nos cinemas por não ter idade pra isso. Mas conforme cresci fui assistindo aos filmes, intercalados, na ordem em que a TV estivesse passando naquele momento. Com o tempo, Luke, Yoda, Vader, Solo e Leia entraram na minha lista mitológica pessoal, tão presentes como qualquer personagem religioso. Não é uma questão de gostar dos filmes. Você não gosta de Star Wars. Você participa de Star Wars ou não. Você escolhe, ou entra do fenômeno de cultura de massa ou não.

A primeira sessão em que assisti a "O Despertar da Força" foi na estreia e catarse define bem. Gritos, aplausos, cavaleiros Jedi e Siths a caráter, pencas de sabres de luz. Um filme maravilhoso, inclusivo sem ser chato, respeitoso com a tradição original. Não se pode esperar menos de um ritual religioso.

Mas na segunda vez em que assisti ao filme, dublado, com meu filho de oito anos do meu lado, é que me senti arrebatado. É estranhamente emocionante ver Leia e Han Solo juntos. É lindo poder acompanhar esses mitos encarnados, trinta anos depois, acompanhados de novos deuses que se juntam ao panteão, com seu filho fazendo comentários sobre a personalidade do BB-8.

Pensei que há trinta e tantos anos atrás algum pai pode ter levado seu filho ao cinema, e agora este filho agora é o pai que leva o filho ao cinema. Pensei, com lágrimas nos olhos, que daqui a dez, vinte, trinta anos, meu filho pode dizer que esteve lá, no cinema, com um sabre de luz e camiseta do R2D2.

Star Wars, Senhor dos Anéis.... não são só histórias. São histórias que, acompanhadas por tanta gente, geram outras histórias em ramificações infinitas.

"Papai, por que sua mão está molhada?"

Eu estou suando, filho, é isso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

The Leftovers

Ontem coloquei um livro inusitado em meu e-reader: A Bíblia. Queria reler algumas passagens, motivado pelo episódio final da primeira temporada de The Leftovers. A segunda temporada está sendo exibida atualmente pela HBO.

Na Bíblia, Deus e o Diabo fazem uma espécie de aposta sobre a fidelidade de Jó, o mais devotado dos humanos da Terra. Com o objetivo de testar a lealdade de seu servo, Deus permite que o Diabo tire de Jó tudo o que ele preza - sua família, seus amigos, sua riqueza, sua saúde. Mesmo assim, coberto de escaras, sozinho, mendigando, Jó não abandona sua crença e, no final, Deus restitui tudo o que ele havia perdido.

Em The Leftovers, o policial Garvey é uma especie de Jó às avessas. Assim como na história bíblica, ele perde tudo - sua família e sua sanidade - mas, dessa vez, por intervenção direta de um Deus atuante. Ao contrário de Jó, Garvey é um descrente - tanto do divino quanto de sua própria vida. Antes do arrebatamento, ele não acreditava que a vida "era só isso": sua família, seu trabalho, a rotina, o cachorro que sua mulher tanto quer. Depois do arrebatamento ele continua cético, tentando retomar a rotina, fingindo que nada havia acontecido enquanto caminha para a loucura a passos largos. Garvey é como um Paulo que, tendo a revelação divina, continua a perseguição aos cristãos. Somente no final da temporada ele aceita seu destino e de certa forma tem sua vida reabilitada.

A ideia de sentido para a vida (purpouse) aparece várias vezes e fica clara a metáfora para a busca de significado em nossas próprias vidas. No mundo real, é comum um descrente ouvir a pergunta: "Se não há Deus, qual é o sentido de existir?", como se isso fosse um argumento ou dúvida legítima e não uma ameaça. O arrebatamento reverbera e amplifica a pergunta: "Há Deus, mas ele não gosta de você. Qual é o sentido de existir?". Todo o esforço secular de construir uma existência pacífica e um significado próprio para a vida é roubado, reduzido a pó, quando Deus faz sua seleção e deixa você de fora. A existência tem um significado fundamentado por Deus, mas você não está nos planos. Algumas vidas têm sentido, a sua não.


A revelação da existência do divino em um evento tão inegável funciona como uma verdade desastrosa. Deus não surge para curar ou salvar; para os deixados, ele surge como uma condenação, uma sentença de morte e sofrimento. Não há esperança, não há tempo para se arrepender. O silêncio e o fumo dos Guilty Remnant são a aceitação do desastre. Não há perdão, então não há o que ser dito. O fim definitivo está chegando, e a morte que virá dele será mais terrível e rápida que qualquer câncer de pulmão.

The Leftovers é uma série excelente, mesmo parecendo não saber que história está sendo contada. O perambular aparente também se relaciona com o tema e o alvo da narrativa: The Leftovers é uma história com inspiração bíblica voltada a um público ateu.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A caminhada da _nossa_ vergonha


Gosto muito de livros que falam da Segunda Guerra Mundial, a ponto de ter juntado uma pequena coleção sobre o tema. O mais recente é "O dia D - A Batalha pela Normandia", de Antony Beevor, que fala da invasão aliada nas praias do norte da França até a retomada de Paris.

O livro é muito bom pra quem gosta do estilo. Como sempre, Beevor consegue intercalar relatos do dia a dia dos soldados nas trincheiras com as decisões dos grandes generais. Neste, algumas histórias sobre as chamadas colaboradoras horizontais dos nazistas me chamaram a atenção.

Muitas mulheres francesas se envolveram com nazistas e foram chamadas de colaboradoras. Algumas eram jovens e não sabiam bem o que estava acontecendo. Outras não tinham outro meio de subsistência fora o soldado alemão com quem passaram a dormir. Outras eram simplesmente prostitutas e não podiam se dar ao luxo de não aceitar nazistas entre os demais clientes.

Mas os motivos específicos não importaram quando os americanos e ingleses chegaram. As colaboradoras tiveram seus cabelos raspados e apanharam de membros da resistência francesa ou de civis que não se envolveram com os nazistas. Na maioria dos casos, os soldados americanos e ingleses assistiam a tudo sem interferência, considerando a situação como um "assunto privado" entre franceses que não dizia respeito a eles. Beevor escreve:

Depois da humilhação de ter a cabeça raspada em público, as tondues ("raspadas") costumavam ser exibidas pelas ruas, às vezes ao som de tambores (...). Algumas foram cobertas de piche, outras semidespidas, outras pintadas com suásticas. Em Baeyux, Jock Colville, secretário de Churchill, recordou sua reação a uma cena dessas. "Vi um caminhão aberto passar, acompanhado de gritos e vaias do povo francês, com uma dúzia de pobres mulheres na carroceria, o cabelo todo raspado. Estavam em lágrimas, a cabeça baixa de vergonha. Embora enojado com essa crueldade, refleti que nós, britânicos, não conhecíamos invasão nem ocupação há novecentos anos. Logo, não éramos os melhores juízes."

Quando li o trecho, lembrei-me imediatamente da caminhada da vergonha de Cersei Lannister, muito parecida com o relato acima. Cersei, como as francesas colaboradoras, não desperta nenhuma simpatia mas, independentemente disso, a cena é nauseante tanto no livro quanto na série. Em certo momento, você só quer que tudo acabe. É interessante que seja uma personagem tão detestada a sofrer uma punição tão severa, talvez pior que a própria morte.

Do alto de sua caneta, George RR Martin nos observa e pensa, rindo, "Não era isso que vocês queriam?". E quando a cena acontece nos sentimos culpados - mesmo sendo uma personagem totalmente inventada - por de alguma forma ser conivente (como os americanos e ingleses) enquanto Cersei chora, ouvindo "shame, shame, shame!"

quarta-feira, 9 de julho de 2014

8 de julho


Hoje li no twitter que a única lição que o futebol ensina é que não há nenhuma lição nele a ser aprendida, que ele é absurdo e hermético, que não serve como metáfora para nada. Não concordo e acho que, conceitualmente, qualquer coisa pode ser metáfora para qualquer outra coisa. Basta o ângulo certo, a visão mais apurada, um observador coerente. Como em "Muito além do jardim", até ideias muito simples se prestam a explicar raciocínios elaborados.

No Facebook, a Renata compartilhou o poema em linha reta, do Fernando Pessoa, muito apropriado ao dia de hoje:

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Hoje fomos ridículos. Estávamos no palco do baile de formatura, esperando a coroa, e fomos atingidos pelo balde de tripas de porco. Há uma certa beleza irônica, uma inversão do "pão e circo" tão repetido pelos antitorcedores de facebook. Se há um circo, hoje fomos os palhaços.

A paixão por futebol nos faz esquecer dos outros problemas, nos deixa mais alienados, mais crédulos e idiotas - mas também pode mostrar de forma drástica a nossa falibilidade. Nossa mortalidade. Mostra que nossa pompa não tem nada de realista. Se no futebol pensamos que somos grandes, também é no futebol que nossa grandeza foi esmigalhada diante de nossos olhos, pro mundo inteiro ver.

E como em todo espelho, não é destruindo o reflexo que se destrói o objeto. Acordaremos ridículos, amanhã e depois, e muitas outras vergonhas e alegrias viveremos na vida e no futebol.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Continue a aplaudir, continue a aplaudir.

Li, há alguns dias, uma história sobre Stálin muito interessante. Veio de um livro chamado "O Arquipélago Gulag", que fala sobre a vida nos campos de concentração da antiga URSS.

Conto de memória porque não consegui localizar o trecho. Stálin veio visitar uma cidade pequena e fez um discurso a autoridades locais. O minúsculo auditório estava lotado e, com os olhos do NKVD em todos, ninguém queria ser o primeiro a parar de aplaudir, terminada a fala do grandioso líder. Oito minutos depois, todos ainda aplaudindo. Dez, quinze minutos depois, ainda os aplausos. Um responsável por uma fábrica local não aguentou mais, parou de aplaudir e se sentou. Na mesma noite estava preso.

Voltando pro presente, você está falando bobagem no twitter e vê algumas pessoas denunciando isso e aquilo outro. Com maiores ou menores evidências de culpa, com gravidades maiores ou menores. E dizem que se você não denuncia, se não repercute, você é cúmplice (você é o inimigo?). E, claro, as circunstâncias e o peso são totalmente diferentes, mas o modo de raciocinar é idêntico ao da história soviética. Ou você está conosco ou está contra nós.

No mundo real, na rua, o status quo é machista, conservador, preconceituoso. Nas redes sociais, principalmente no twitter, a situação é bem diferente. A capacidade de mobilização dos grupos é impressionante. Há algum tempo, apareceu em um blog da Revista Pais & Filhos um post crítico contra uma suposta "moda da amamentação". A resposta foi imediata: pipocaram comentários avacalhando a autora, a revista, o texto, a vida, o universo e tudo mais. A mobilização continuou até que a revista retirou o texto e publicou um pedido de desculpas. Para algumas pessoas ainda assim não foi suficiente e as críticas continuaram, o que acabou rendendo mais alguns textões de facebook que evidentemente não li.

Não gostei do texto contra a "moda da amamentação", achei demagógico e pouco esclarecedor. Mas isso pouco importa. Não é suprimindo uma ideia que se divulga uma outra. O patrulhamento em turba causa cegueira: o texto estava num canto, em um blog, não na publicação principal da revista. Na mesma página, contei pelo menos 3 links falando dos benefícios da amamentação. Pouco importava.

Suprimir uma ideia é acreditar que o seu julgamento sobre aquela ideia é superior ao das outras pessoas. A ética é simples e o veredito é rápido: Eu, ao chegar ao site, que muito provavelmente não tinha visitado nenhuma vez antes, vou ler o texto criticando a amamentação e perceber que ele é errado - mas, outras pessoas podem não pensar assim, então vamos forçar a revista a eliminá-lo. Mais uma vez salvamos o dia, "não passarão". Eu sei o que é melhor pras outras pessoas; qualquer discordância deve ser perseguida e eliminada.

Como já escreveu David Butter, é a ética da biscoiteira:
É a ética da biscoiteira: a remoção do pote para negar a fome. Com o pote longe, a biscoiteira jura livrar meninos e meninas de uma ânsia capaz de levá-los à hipertensão, ao diabetes e às cenas de reportagens de TV sobre como os gordos estão em todos os lugares. [...]

Agora, a ética da biscoiteira só acalma a biscoiteira. A ética da biscoiteira é uma não-ética, por negar a escolha. Ela se ancora num egoísmo solidário: por vocês, eu, só eu, decido ser melhor assim. Em nome do combate a opressões, a biscoiteira traz uma nova opressão, a de seu juízo “emancipado”. Quer purificar fazendo sumir. Quer negar a violência violentando.

Costumo brincar que, em um futuro não muito distante, o último a compartilhar o texto do Sakamoto vai virar alvo da patrulha nas redes sociais. Tenho medo da brincadeira ter cheiro de realidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Nome do blog

Pessoal, vou mudar o nome do blog e, mais pra frente, também o endereço. Vai ser algo como http://daquidecimadomuro.blogspot.com

Estou trocando porque o nome e endereço antigos não faziam mais sentido. Quando comecei, escrevia com o Alexandre no colo... agora ele já está ali no quarto, brincando com seu Stormtrooper.