segunda-feira, 3 de maio de 2010

Porque os neo ateus falharam, e como derrubar todos os argumentos religiosos com um passo simples

Há algum tempo eu acompanho o blog do Luke Muehlhauser, chamado Common Sense Atheism, em que ele escreve com muita propriedade sobre filosofia, moralidade e religião. Ontem ele postou no site uma palestra que deu ao grupo 'Rational Thought' de San Diego, eu li, gostei, e resolvi traduzir.

O original da palestra está aqui, com o vídeo do youtube e o texto que transcrevi.

O título é temerário e, claro, ninguém consegue fazer milagres (ops). Mas as ideias são muito boas.

Perdoem o post muito longo e a tradução mambembe.



Olá a todos. Meu nome é Luke Muehlhauser, e eu já fui um cristão renascido, batizado, puxa-saco de pastor por 21 anos, em Minnesota. Com vinte anos eu não queria nada da vida a não ser copiar a Jesus em um mundo perdido e hostil. Então eu tive que descobrir quem Jesus realmente foi, e eu comecei a estudar o Jesus histórico.

O que eu aprendi, até mesmo de estudiosos cristãos, foi um choque. A Bíblia é cheia de contradições. Os autores do Novo Testamento têm teologias diferentes, e até a pregação de Paulo era bem diferente da pregação de Jesus, e foi a pregação de Paulo que se tornou o Cristianismo que conhecemos hoje. O Cristianismo na verdade deveria se chamar Paulinismo.

Isso foi bem amedrontador porque todos os meus sonhos, todos os meus planos, todas as minhas relações com outras pessoas, todo o meu conforto giravam em torno de ser um Cristão. E eu li o trabalho de historiadores e filósofos Cristãos conservadores para tentar recuperar minha fé, mas para ser justo li um pouco de material cético também, e descobri que aquilo os céticos diziam tinha um sentido simples e direto, enquanto os apologetas Cristãos tinham que fazer muitas acrobacias intelectuais só para dizer que o Cristianismo era defensável.

Então eu perdi minha fé e agora eu tenho um website popular sobre ateísmo e moralidade.

O título da minha palestra hoje é 'Porque os Neo Ateus Falharam, e Como Derrubar Todos os Argumentos Religiosos com um Passo Simples'.

E esse é um título bem sensacionalista, e eu espero que vocês estejam céticos quanto a ele. Mas eu quero também mencionar que nada do que direi aqui hoje é original. Eu só estou popularizando e sumarizando o trabalho de filósofos profissionais em periódicos técnicos que ninguém lê.

Mas vamos conversar sobre aquela primeira parte: Porque os Neo Ateus Falharam. Você pode dizer 'Luke, mas como você pode dizer que os Neo Ateus falharam? Ateus estão saindo do armário às pencas. Os famosos Neo Ateus como Richard Dawkins e Christopher Hitchens e Sam Harris estão aparecendo em programas de TV e de rádio em todos os lugares só pra falar sobre ateísmo. E livros sobre ateísmo estão vendendo milhões de cópias, pela primeira vez na história. Você chama isso de falha?'

Bem, claro que não. Eu sou extremamente grato aos Neo Ateus.

Onde os Neo Ateus falharam é algo diferente, mas também muito importante para eles: eles não conseguiram construir um caso intelectual forte para o ateísmo.

Eu tenho certeza de que Richard Dawkins não iria gostar dessa afirmação. Mas ela é ponto pacífico entre aqueles que discutem a existência de Deus como trabalho: filósofos profissionais. Eu falei com dúzias deles, crentes e ateus, e nenhum deles pensa que algum dos Neo Ateus construiu uma fundação intelectual sólida para o ateísmo.

Claro que os filósofos religiosos escrevem muito sobre os Neo Ateus porque estão eufóricos para mostrar como os argumentos são ruins, mas filósofos ateus simplesmente os ignoram porque estão trabalhando com argumentos melhores e não há nada para aprender com os Neo Ateus.

Eu vou dar a vocês só dois exemplos.

O primeiro argumento é o que Richard Dawkins chama de 'argumento principal' em seu livro 'Deus, um Delírio'. É um argumento de seis passos, mais ou menos assim. Ele diz, 'Veja, se você vai postular que Deus é a melhor explicação para o flagelo bacteriano ou o olho humano, isso não ajuda em nada, porque um designer inteligente desse negócio teria que ser ainda mais complexo. O seu cérebro, quando você desenha alguma coisa, tem que ser infinitamente mais complexo do que a coisa que você desenha. Então se você vai dizer que é improvável que coisas complexas venham a existir, então precisamos de Deus para explicar isso, e você tem um problema ainda maior com Deus, porque ele é ainda mais complexo. Então é bem improvável que um Deus complexo venha a existir. No melhor caso, Deus teria que se desenvolver por um longo processo gradual como a Evolução.'

Então esse é o cerne de seu argumento. Por que ele falha?

O primeiro problema com o argumento de Dawkins é que ele é logicamente inválido, o que quer dizer que mesmo se todas as premissas forem verdadeiras, o que não tenho certeza que sejam, elas ainda não provam a conclusão. Mas vamos dizer que Dawkins não estava dando um argumento lógico, mas sim alguma espécie de rascunho confuso na direção de um argumento que ele quer fazer mas que nunca faz. Mesmo assim, não é muito útil.

O segundo problema é que Dawkins está tentando contra-provar um Deus em que quase ninguém acredita. Deixem-me explicar. O Deus que Judeus, Cristãos e Muçulmanos acreditam é todo-benevolente, todo-poderoso, não-físico, pessoal, eterno e necessário.

E essas duas últimas qualidades que criam um problema para Dawkins. Porque se Deus é eterno ou necessário, então ele não 'veio a existir'. Deus não é o tipo de ser que vem a existir como eu e você, ele é supostamente uma característica obrigatória de qualquer mundo possível, e ele sempre existiu. Então se Dawkins diz que é improvável que um Deus assim tenha vindo a existir, então ele só está contra-provando um Deus em que quase ninguém acredita.

Isso tudo vem de um artigo do filósofo ateu Erik Wielenberg, que tentou ressuscitar o argumento de Dawkins em uma forma lógica, só pra descobrir que mesmo assim ele falha.

Então é isso que eu chamo, em meus momentos mais corajosos, de falha épica do Neo Ateísmo. Esse é o argumento central do livro mais popular do mais respeitado Neo Ateu, e é uma falha completa. Ele falha em todos os sentidos em que é possível um argumento falhar.

Bom, antes que os ateus daqui me apedrejem, vou dar mais exemplos de maus argumentos de ateus.

Na página 71 (da edição inglesa) de 'Deus não é grande', Christopher Hitchens escreve que:

O postulado de um designer ou criador só levanta imediatamente a questão irrespondível de quem desenhou o designer. Religião e teologia... têm consistentemente falhado em fugir dessa objeção.


Quem desenhou o designer? Quem fez Deus? É uma pergunra que uma criança de cinco anos pode fazer. Mas é um mau argumento, e eu gostaria de explicar por quê. Eu recebo muitas críticas por isso porque é muito popular dizer 'Quem desenhou o designer?' mas qualquer um que tenha feito uma aulinha de Filosofia da Ciência vai saber que é um mau argumento.

Você se lembra de quando era criança e você descobriu que você podia perguntar 'Por quê?' ao seus pais, e não importa a resposta, você poderia simplesmente perguntar 'Por quê?' de novo?

'Pai, porque os pássaros voam?'

'Porque eles têm que conseguir comida para seus filhotes.'

'Por quê?'

'Porque senão seus filhotes vão morrer de fome.'

'Por quê?'

'Porque eles precisam de energia para continuar vivendo.'

'Por quê?'

'Porque... hum, papai está cansado, por favor me deixe em paz.'

É claro que, mesmo se o pai fosse um biólogo profissional, mesmo assim haveria uma hora em que ele não conseguiria responder ao 'Por quê'.

E cientistas sabem disso.

Muitos anos atrás, físicos postularam átomos para explicar certas observações - e eles estavam certos, mesmo que não tivessem a mínima ideia de como explicar os átomos.

E agora eles postulam elétrons e fótons e assim por diante mesmo não podendo explicar, por sua vez, elétrons e fótons.

Então se para oferecer algo como 'melhor explicação' para uma observação, você precisa da explicação da explicação, então você nunca poderia explicar nada, porque sempre precisaria da explicação para a explicação, e da explicação para a explicação para a explicação, e assim por diante, até o infinito.

Assim, eu não acho que os Neo Ateus possam requerer que as explicações sejam explicadas, porque isso destruiria a Ciência, e Ciência é algo de que os Neo Ateus parecem gostar muito.

É outro mau argumento dos Neo Ateus e vem do fato de que nenhum deles é, de fato, um estudioso de religiões.

Bem, isso me leva à segunda parte da minha palestra: Como Derrubar Todos os Argumentos Religiosos em Um Passo Simples.

Por que esse 'Foi Deus quem fez' seria então uma má explicação? Não é porque Deus é, em si mesmo, inexplicável. É por outras razões. E é assim que você derruba todos os argumentos religiosos com um só passo simples.

Vamos analisar uma lista de argumentos para a existência de Deus:

Você tem os argumentos cosmológicos: Deus é a melhor explicação para algo existir ao invés de nada.

Você tem argumentos de design: Deus é a melhor explicação para certas coisas complexas.

Você tem argumentos morais: Deus é a melhor explicação para dizer porque algumas coisas são realmente boas ou maldosas.

E aqui estão alguns outros argumentos propostos pelo mais importante filósofo Cristão vivo, Alvin Plantinga:

Ele diz: Deus é a melhor explicação para a existência de conjuntos matemáticos.

Deus é a melhor explicação para a nossa experiência de sabor e cor.

Deus é a melhor explicação para a nossa apreciação de Mozart.

Deus é a melhor explicação para a nossa sensação de nostalgia.

Agora você já deve ter notado um problema. Como dizer 'Foi Deus quem fez' explica qualquer uma dessas coisas? Como é que 'Deus fez' oferece uma solução para qualquer um dos problemas em que filósofos e cientistas estão trabalhando? Quando você é confrontado com um problema difícil, não pode sair dizendo 'Bem, eu acho que foi mágica.' Não resolve nada!

'Puff! Mágica' não é uma explicação.

Mas eu não posso simplesmente dizer que 'Puff! Mágica' não é uma explicação. Eu tenho que argumentar para demonstrar isso.

Cientistas e filósofos, quando procurando por uma melhor explicação, identificaram algumas qualidades que geralmente estão associadas a boas explicações. O que faz de alguma coisa a melhor explicação? O que faz de alguma coisa uma boa explicação, e de alguma outra uma explicação não tão boa?

Bem, a primeira coisa é que elas sejam testáveis. Na verdade, se uma teoria não é testável, não faz muito sentido dizer que ela é a melhor explicação para alguma coisa, já que não há maneira de testar se ela é verdadeira ou falsa! As teorias devem fornecer previsões específicas, para que você possa ir ao mundo e observar se as previsões são concretizadas ou não.

E é claro, não deve ser apenas testável, como também tem que passar no teste. Astrologia é bem testável.

Por exemplo, muitos astrólogos dizem que o ciclo menstrual das mulheres corresponde às fases da Lua. Isso é testável! E adivinhem? Nós testamos, e está errado.

Nossas melhores explicações também tendem a ser consistentes com nosso conhecimento prévio. Se uma nova teoria requer que joguemos fora tudo o que sabemos sobre a luz e a gravidade e animais e humanos, então é provável que não seja uma teoria correta. Consistência com conhecimento prévio é importante para uma melhor explicação.

Explicações bem-sucedidas também tendem a ser mais simples que as alternativas. Se um biscoito sumiu do pote de biscoitos, é provável que o Timmy tenha pegado o biscoito. É possível que o FBI e uma gangue de poltergeists conspiraram para usar uma máquina para congelar o tempo, passar por você, roubar o biscoito e depois fugiram e descongelaram novamente o tempo. É possível. Mas é bem improvável. Por quê? Porque todos os elementos dessa história são improváveis, e a teoria requer que todos sejam verdadeiros, o que seria ainda mais improvável. Então não adicione coisas que não sejam necessárias na sua teoria.

Explicações bem-sucedidas também devem ter bom escopo explicativo, o que quer dizer que elas devem explicar uma boa quantidade de dados. Por exemplo, aquela teoria que as linhas de nuvens brancas que vemos no céu de vez em quando são de aviões do governo jogando gás para controlar nossas mentes. Um problema com essa teoria é que ela pode explicar porque os novaiorquinos vêem as linhas, mas não explica porque você vê as mesmas linhas em desertos e oceanos, onde não há mentes para controlar. Então essa teoria explica os dados, mas não explica todos os dados. Ela tem um escopo explanatório muito limitado.

Esse é só o começo do que os cientistas e filósofos procuram em uma boa explicação, mas já podemos notar que há grandes problemas para a teoria 'Foi Deus quem fez'.

Por exemplo, a hipótese de Deus é testável? Não. Dizer 'Deus fez' não provê nenhuma previsão específica para testarmos, porque Deus é todo-poderoso e ele pode ser responsável por tudo. E os teólogos são bem insistentes nisso porque quando alguns deles começaram a fazer a hipótese mais específica, de forma a fornecer previsões testáveis, o que normalmente ocorreu é que elas falharam no teste. Então eles se preocupam muito em fazer de Deus essa coisa misteriosa, todo-poderosa, cujos propósitos não entendemos e que pode fazer qualquer coisa sem que entendamos porquê. Então não há nenhuma previsão específica que venha da hipótese Deus; não há como testá-la. E não faz sentido dizer que Deus é a melhor hipótese se não há como testar se a hipótese é ou não verdadeira.

E quanto ao segundo critério? A hipótese divina é consistente com nosso conhecimento prévio? Nem um pouco. Deus é uma violação extrema de nossos conhecimentos e de como as coisas funcionam. Deus é uma pessoa mas ele não tem um corpo. Deus pensa, mas sem a passagem do tempo. Ele sabe tudo, mas não tem um cérebro. Deus é uma violação terrível de nosso conhecimento prévio de muitas formas sérias.

E a hipótese Deus é simples? Se você está falando do Deus da Bíblia, definitivamente não. O Deus da Bíblia é uma pessoa extraordinariamente complexa; um ser com pensamentos e emoções que ama e odeia e condena e perdoa; um ser que transforma um cajado em uma cobra e uma mulher em sal; um ser que muda de ideia; um ser que causa incêndios e arremessa pedras do céu; um ser que mata e ressuscita; um ser que toma parte em relacionamentos pessoais e confrontos políticos; um ser que se encarna como um organismo biológico complexo conhecido como Jesus de Nazaré. O Deus da Bíblia está longe de ser simples.

E mesmo se você estiver falando de um tipo de Deus mais genérico, também não é simples. O filósofo Cristão C. Stephen Layman listou quatro formas em que uma hipótese pode ser considerada simples, e admitiu que em todas as quatro a hipótese Deus é mais complexa do que a hipótese atéia. Mas eu não tenho que entrar nesse assunto agora.

E quanto ao escopo explanatório? A hipótese divina tem um bom escopo explanatório? De novo, não. Eu vou dar só um exemplo. Se você invoca Deus como uma explicação para o aparente design do Universo, você imediatamente incorre no problema de toda a incompetência e 'design maligno' que também podemos observar.

Finalmente, por que 'Deus fez' é uma má explicação? Porque 'Deus fez' não possui nenhuma das virtudes que procuramos em uma explicação bem sucedida, e ao contrário tem muitas das qualidades que podemos encontrar em péssimas explicações, como em pseudociência e superstição.

E como você pode derrubar todos os argumentos religiosos em um passo simples? Quando alguém der a você um argumento a favor de Deus, pegue a parte em que ele diz que Deus é a melhor explicação para alguma coisa e pergunte: 'Como 'Deus fez' é uma boa explicação pra isso? Como 'Puff! Mágica' explica qualquer coisa? Por favor me explique porque mágica é uma boa explicação pra isso.'

E quando fizer isso, fica imediatamente claro o que é que está acontecendo ali. Crentes não estão realmente oferecendo uma 'melhor explicação' para qualquer coisa, o que eles estão oferecendo é o bom e velho argumento pela ignorância.

'Woah! Raios! Eu não sei como acontece, então... deve ser um raivoso ser mágico no céu atirando raios em nós!'

'Eu não consigo explicar o mecanismo do flagelo bacteriano.... então deve ser o trabalho de um mágico ser pessoal todo-benevolente, todo-poderoso, não-físico, fora do tempo, fora do espaço!'

Esses são argumentos pela ignorância e eles são realmente ruins. Quando você diz 'Nós não sabemos', não pode continuar '...então tem que ser... alguma coisa'. Quando você diz 'Eu não sei', é aí que a frase deve parar.

Quando você pergunta para as pessoas explicarem 'Como esse 'Puff! Mágica' é a melhor explicação para isso?' fica claro que os crentes estão somente oferecendo argumentos pela ignorância e os travestindo com a linguagem da 'melhor explicação'.

Como você derruba todos os argumentos religiosos com um passo simples? Você pega a parte do argumento em que eles postulam Deus como a melhor explicação para alguma coisa, e você pergunta: 'Como é que Deus é a melhor explicação para isso? Como é que 'Puff! Mágica' é a melhor explicação para alguma coisa?'

Obrigado,

Nota 1: É claro que Dawkins poderia fornecer um argumento de que Deus não pode ser eterno ou de que não pode ser um ser necessário. Mas se ele tivesse tais argumentos, eles sozinhos desprovariam o teísmo, e o argumento dele sobre complexidade seria desnecessário e irrelevante.

Nota 2: Um Deus todo-poderoso, todo-benevolente não é a melhor explicação para doenças congênitas. Ele não é a melhor explicação para o ponto cego nos seus olhos. Ele não é uma boa explicação para o fato de que a cabeça dos bebês muitas vezes seja maior do que a abertura pélvica da mãe, o que levou à morte de milhões de mulheres e crianças antes da invenção da cesariana. Ele não é uma boa explicação para o fêmur e a pélvis inúteis em baleias, vestígios de quando eram animais terrestres.

6 comentários:

Henrique Rossi disse...

Nossa André,

Você sempre me surpreende pra melhor. Não tenho a menor ideia do porquê isso acontece. Nós não nos conhecemos, nem nunca nos vimos. Tanto que você pode ser um anão senegalês ou um chinês com três pernas que anda de ponta de cabeça, eu não saberia reconhecê-lo pois nunca o vi.

Achei várias coisas fantásticas no texto que você traduziu. De fato, Richard Dawkins e amigos dizem muitas besteiras.. Já esse cara, ainda que eu não concorde com ele, é um iniciado! Ele não fala besteiras. Ele não faz da retórica afetada e passional seu único argumento. Conheci Dawkins pelo Ariel, que foi meu surpevisor enquanto trabalhei na TeleImage. Vi o pode nefasto que ele possui sobre mentes despreparadas, por isso lhe desenvolvi tanta aversão.

Agora, aos méritos do texto. Não pretendo julgá-lo, farei apenas breves comentários.

Primeiro, os estudiosos com que ele estudou. Deduzo que não sejam teólogos de grande talento, pois neste quesito crucial ele falou coisas horríveis a respeito deles:

O que eu aprendi, até mesmo de estudiosos cristãos, foi um choque. A Bíblia é cheia de contradições.
(...)
Então eles se preocupam muito em fazer de Deus essa coisa misteriosa, todo-poderosa, cujos propósitos não entendemos e que pode fazer qualquer coisa sem que entendamos porquê.


Olha, posso dizer que eu não acreditaria em nenhum teólogo que me vendesse essas ideias! O meu conhecimento atual sobre as aparentes contradições bíblicas e sobre as propriedades divinas são muito superiores a estas que ele atribui aos cristãos dos quais ele procurou aprender - e olha que eu não sou nenhum especialista no tema!!! Eu não sou teólogo. Nunca estudei essa matéria com profundidade. Ou seja, concordo que essas proposições que ele atribui a seus antigos mestres são ridículas. O autor do texto está certo. Elas são ridículas.

Antes de prosseguir, gostaria de ressaltar as colocações de excelente qualidade que ele fez das proposições de Dawkins e companhia:

Eles não conseguiram construir um caso intelectual forte para o ateísmo.

Eu tenho certeza de que Richard Dawkins não iria gostar dessa afirmação. Mas ela é ponto pacífico entre aqueles que discutem a existência de Deus como trabalho: filósofos profissionais. Eu falei com dúzias deles, crentes e ateus, e nenhum deles pensa que algum dos Neo Ateus construiu uma fundação intelectual sólida para o ateísmo.


É a mais pura verdade. Todos são unânimes em considerar piada de mau gosto as ridículas proposições de Richard Dawkins. Isso merece aplausos entusiasmados!

Mas prossigamos. Vejamos agora a substância da análise que ele faz da crença em Deus da maioria das pessoas:

Por que esse 'Foi Deus quem fez' seria então uma má explicação?
(...)
Por exemplo, a hipótese de Deus é testável? Não.
Verdade! Do ponto de vista científico, a mais pura verdade!!

Não faz sentido dizer que Deus é a melhor hipótese se não há como testar se a hipótese é ou não verdadeira. Verdade de novo!

Deus é uma violação extrema de nossos conhecimentos e de como as coisas funcionam. Apesar do termo parecer agressivo, eu entendi o que ele quis dizer, e é verdade!

Porque 'Deus fez' não possui nenhuma das virtudes que procuramos em uma explicação bem sucedida, e ao contrário tem muitas das qualidades que podemos encontrar em péssimas explicações, como em pseudociência e superstição. Verdade verdadeiríssima!

Crentes não estão realmente oferecendo uma 'melhor explicação' para qualquer coisa, o que eles estão oferecendo é o bom e velho argumento pela ignorância. Verdade triplamente verdadeira!

(continua)

Henrique Rossi disse...

Ele está certo em todas essas colocações! Simplesmente está! Eu as conhecia muito antes de me converter ao catolicismo e sei muito bem que são verdadeiras! Pois então, ao contrário de Dawkins e amigos, ele está correto! Quanta diferença não? É sempre melhor ouvir coisas certas que coisas erradas, ainda mais quando somos sensíveis ao assunto.

Porém, apesar de estar correto em todas as suas afirmações, elas não comprovam por si só que Deus não existe.

Ou seja, meus argumentos pessoais que justificam a existência divina são muito superiores às colocações dele. De fato, não sei se você concordará comigo nisto, todas essas objeções verdadeiras que ele faz a respeito da crença das pessoas comuns tem bastante cheiro de pentecostalismo protestante, não é? Ou seja, ele está criticando os pressupostos deste sistema particular, e não de todo o cristianismo.

Eu já fui um cristão renascido, batizado, puxa-saco de pastor por 21 anos, em Minnesota.

O que será cristão renascido??? Hum.. Isso tem cara de pentecostalismo protestante! Esse termo não é comum aos católicos, exceto ao pessoal da Renovação Caristmática que copiam.... os pentecostais protestantes!


Então tenhamos bem claro uma coisa: ele está refutando de maneira muito elegante a fé ridícula e fundamentalista dos pentecostais. Tanto que imagino que os "estudiosos cristãos" a que ele recorreu para maiores esclarecimentos não sejam pentecostais. Penso que são de denominações protestantes mais antigas, como o luteranismo ou o presbiterianismo. De qualquer forma, como já disse, achei estapafúrdias as coisas que estes mestres lhe disseram. Não sou lá grande fã do protestantismo, muito menos de sua teologia.

Ao que chego ao centro do que eu gostaria de destacar: os extremos se encontram! Pentecostais radicais e ateus a là Dawkins são faces diferentes da mesma moeda. Nenhum dos lados têm a menor ideia do que está falando. Ambos dizem bobagens e asneiras que qualquer iniciado em filosofia consegue refutar. E, no entanto, como um denuncia tão bem a existência do outro, eles se odeiam.

Mas, oras, se eles se odeiam isso é problema deles!! rs.. Tô falando sério! Eu não tenho nada a ver com os problemas deles. Dawkins se dirige apaixonadamente aos cristãos fanáticos e cristãos fanáticos se dirigem apaixonadamente a ele, Dawkins. Há um encontro existencial entre esses grupos. Mas, de fato, não gasto minha pestana com nenhum deles! rs.. Apenas fico irritado quando tentam me enfiar numa briga que não me pertence.

(continua)

Henrique Rossi disse...

Para concluir, gostaria de fazer algumas colocações sobre o que me pareceram as emoções mestras do pensamento do Luke Muehlhauser:

Com vinte anos eu não queria nada da vida a não ser copiar a Jesus em um mundo perdido e hostil.
(...)
Um Deus todo-poderoso, todo-benevolente não é a melhor explicação para doenças congênitas. Ele não é a melhor explicação para o ponto cego nos seus olhos. Ele não é uma boa explicação para o fato de que a cabeça dos bebês muitas vezes seja maior do que a abertura pélvica da mãe, o que levou à morte de milhões de mulheres e crianças antes da invenção da cesariana. Ele não é uma boa explicação para o fêmur e a pélvis inúteis em baleias, vestígios de quando eram animais terrestres.


Com base nestas observações posso afirmar com toda certeza que ele desconhece em absoluto o ponto de vista católico. Ou seja, o que a teologia católica explica sobre as ocorrências que ele menciona. Para o catolicismo, estes são problemas velhos, que São Tomás já resolveu quase um milênio atrás. Portanto, se começassemos a conversar sobre eles, eu retomaria as ideias deste grande teólogo católico. Os problemas atuais da teologia católica não têm nada a ver com os levantamentos dos "neo ateus". Como o Luke explica, qualquer iniciado em filosofia refuta sumariamente as ideias levantadas por Dawkins.

De fato, como a teologia cristã tradicional, portanto, católica, existe há 2 mil anos, não foi pouco o que ela produziu. Há um livro que faz uma apresentação sucinta dos melhores argumentos teológicos para Deus, Cristo, problemas no mundo, etc.. Aquele do capítulo que eu te enviei: o Mero cristianismo, de C. S. Lewis. Veja, este livro não é um tratado teológico em si, mas ele faz uma apresentação razoável das melhores ideias que o cristianismo já produziu. Com a grande inteligência que lhe é peculiar, Lewis demonstra que a hipótese divina é mais simples que a hipótese atéia! E como ele faz isso? Afinal de contas, de algum modo ou outro, ele tem de partir da realidade que nos cerca. Bem, como eu mesmo admiti a hipótese Deus não é verificável, ao menos não cientificamente.

Ah!! Então não é através da ciência que Lewis irá demonstrar que a hipótese divina é a mais simples.

Mas será que existe alguma coisa na realidade que não seja aferível cientificamente?????? Se Lewis parte da realidade, então ele deve mencionar algo que pertece ao mundo que nos rodeia. Mas não está determinado que tudo o que nos rodeia pode ser cientificamente explicado???????

Se você leu os últimos textos do polimático você sabe que sim! Há no mundo que nos rodeia algo que não é cientificamente verificável a partir do qual se demonstra que a hipótese divina é mais simples e elegante que a hipótese ateia. E essa coisa é o pensamento!

É a partir daí que surgem as considerações da teologia tradicional, sempre explicando Deus a partir da razão humana.

Da forma como explicaram Deus para o Luke não me admiro nem um pouco que ele se tenha tornado ateu. Qualquer pessoa bem intencionada era capaz de fazê-lo após ouvir tanta abobrinha. De modo geral, gostei muito das considerações dele, pena que ele talvez não conheça a teologia cristã milenar.

Henrique Rossi disse...

Só mais uma coisa! rs..

O Lewis não foi católico como o Tolkien, seu amigo pessoal. O Lewis foi anglicano, mas a Igreja Anglicana sempre foi "semi-católica". A herança teológica entre o catolicismo e o anglicanismo é comum. Quando Henrique VII separou-se de Roma, ele exigiu que a nova Igreja defendesse a fé verdadeira. Se você perguntar a um anglicano se ele é católico ele responde que sim. Tanto que, com o avanço do gayzismo em certas correntes anglicanas, vários clérigos desta religião solicitaram sua entrada no catolicismo ao papa Bento XVI, no que foram prontamente aceitos. Apenas os bispos casados não poderão ser bispos católicos. Terão de ser padres somente. Aliás, já há entre os católicos muitos padres casados. Eles vieram de anglicanos e ortodoxos e Roma permitiu que continuassem padres, apesar de casados.

Anônimo disse...

Tudo que o Henrique disse que os filósofos católicos responderam há mil anos só foi respondido para quem parte das premissas de que Deus existe e é onisciente e onipotente de modo que tudo que eles fizeram e ele faz na verdade é responder 'é porque é'...
E pretender que a igreja católica é superior moral ou teológicamente superior às suas irmãs mais novas é só pretensão mesmo porque na verdade quem tá de fora vê que é tudo farinha do mesmo saco...Moralmente então...
Sem contar que afirmar que 'se eles se odeiam isso é problema deles' é uma afirmação contraditória aos ensimanentos de Cristo, base do cristianismo, não?

- adelson

André T. disse...

Pessoal, prometo responder os comentários. Só preciso meditar mais um pouquinho sobre o que escreveram.