terça-feira, 20 de outubro de 2009

The Asimov Chronicles - Parte 3


- Cara, você viu o vídeo sobre o cara simulando um cérebro humano usando computadores?

- Não... tava com preguiça.

- Então... ele simula um neurônio em cada processador, diz que entendeu como funcionam os diversos tipos de neurônio e as ligações entre eles. E acredita que criando um modelo disso usando um supercomputador, vai conseguir simular um cérebro, com consciência e tudo, em menos de dez anos!

- Caramba. Legal. Você viu a Maitê cuspindo na fonte?

- Vi sim. Foi uma ótima desculpa pros portugueses soltarem os preconceitos deles. Ah, mas então, imagina, como seria quando esse cérebro artificial acordasse?

- Será que ele ia falar algo como... 'bom dia?' ou... 'leve-me ao seu líder?'.

- Hahaha, não. Provavelmente ele não diria nada, já que não saberia falar. Levaria muito tempo até poder aprender a entender uma linguagem.

- Tem razão. É como uma criança, né? Uma criança na máquina. A não ser que dessem a ele um conhecimento prévio de uma linguagem. Mas aí estariam roubando, não?

- É, também acho que estariam. E sabe uma coisa que me faz pensar? Se esse cérebro artificial for modelado a partir de um cérebro humano, então, mesmo que seja feito de forma a ter mais neurônios, mais sinapses, ele ainda assim vai estar propenso a erro. Aí... imagina que o tal computador acerte um montão de previsões e consiga responder a qualquer tipo de pergunta baseado em premissas e lógica. Aí você dá uns pressupostos pra ele de coisas que conhecemos e faz uma pergunta muito importante... tipo...

- ...tipo 'Deus existe?'.

- Eu estava pensando em algo como 'É possível criar um modelo socio-econômico em que a felicidade humana seja maximizada e qual seria esse modelo?', mas a sua serve. Aí, bom, imagina se o fato do tal cérebro artificial estar sujeito a erro se manifeste bem na hora de responder essa questão, a mais importante de todas! Imagina se ele dá uma resposta mais ou menos coerente, mas que tenha um componente de absurdo... algo como: 'Partam do Estado do bem-estar social como desejado pelo economista X da Silva, e obriguem todo mundo a usar chapéus de pirata amarelo nas quintas feiras.'. Ia ser uma grande confusão.

- Nossa. Mas e aí, o que fazemos? Não perguntamos?

- Não... perguntamos e ficamos na dúvida sobre ele ter respondido certo.

- Exatamente como estamos agora.

- É. Mas pelo menos vamos rir da resposta.

21 comentários:

Suzana Elvas disse...

Eu não vi a Maitê cuspindo na fonte.
E faz tempo eu li em algum lugar uma criatura fazendo exatamente isso, tentando reproduzir as sinapses humanas - e logo de cara o computador abriu o guarda-chuva DEPOIS de pegar chuva na entrada de casa.
Enfim. Tô com sono e resfriada. Nada sairá de inteligente neste comentário. A não ser "leia 'A descronização de Sam Magruder'".
Já te falei dele? Não? Tô relendo. Muuuuito bom.
Vou começar a te mandar umas ofertas do meu sebo particular.
Hehehe

André T. disse...

Hahaha, pode mandar, vou agradecer. Você deveria fazer um cadastro lá no Skoob. Dá um trabalho danado, mas depois fica fácil de referenciar as coisas :D

Giseli disse...

Ótima reflexão =) Às vezes me pego perguntando quão rápido o computador aprenderá essas coisas logo depois de emergir a consciência. E gosto de especular ainda mais no terreno da computação quântica, se as IAs rodando nessas plataformas seriam mais rápidas...
Você já leu o livro "Wake", de Robert J. Sawyer? Fala sobre uma consciência artificial surgida da Internet e sua relação com uma menina cega que começa a enxergar por meio de uma nova tecnologia. A IA aprende pelo que vê nos olhos da menina. Recomendado! =)

André T. disse...

Vocês querem acabar com meu já minguado salário :(

Suzana Elvas disse...

Sobre o Skoob - vou dar uma de sebosa:
Eu tenho uns 3.500 livros, e as meninas mais uns 500. Eu leio cerca de 5 a 8 livros por mês, sem contar os que eu bizoio das meninas (recomendo para as meninas "Keka tá na moda" e "As saias voadoras de Keka", que falam da evolução da moda e, consequentemente, da mulher. Da Helen Pomposelli, Ed. Rocco. Ah, e "Monte Verità", absurdamente BOM, MARAVILHOSO. Para aborrecentes de ambos os sexos que tenham miolo - para os que não têm...bom, terão. Também da Rocco, do Gustavo Bernardo).
Me perdi. Ah, sim. Procurar capinhas e botar ali...Tô fora. Principalmente vendo que os mais lidos são "Harry Potter".

Largou no meio "Crepúsculo"? Por quê? É tãããããõ ruim assim?

André T. disse...

E eu crente que estava arrasando.

Larguei o Crepúsculo no meio porque achei a adolescente lá chata demais. Não dava pra aguentar as adolescentices dela.

Deh disse...

Eu li inteirinho. Mas foi pra ter mais propriedade pra falar mal. E pra poder botar banca com minhas aluninhas, pega hiperbem ler Crepúsculo. E Harry Potter, isso eu assumo que gosto.
Mas eu tenho quilos de preguiça de me cadastrar nesse treco. Preguiça e vergonha, né. Mó jacu.

Henrique Rossi disse...

Estou tentando escrever um texto sobre inteligência artificial há algum tempo. Tive aula desse assunto com um prof. do dep. de psicologia da minha faculdade.

Seria prematuro adiantar qualquer coisa mas, como sou um sujeito meio destemido vou falar só uma coisinha: sim, o homem desenvolverá máquinas de altíssima inteligência que aparentarão ter consciência própria. Mas não, ela não terá consciência própria da mesma forma que nós.

André T. disse...

'Mas não, ela não terá consciência própria da mesma forma que nós.'

Bom, isso é só uma opinião sua, mas eu concordo dependendo do que você queira dizer com isso. Eu acho que uma consciência simulada estaria pra uma consciência 'real' assim como uma prótese de mão com nervos e músculos (artificiais) e tudo mais estaria para uma mão 'real'.

É claro que você acredita que seria essencialmente diferente porque tira conclusões teológicas prévias e a partir delas emite as suas opiniões. Mas poderia fazer também o contrário e imaginar que as consciências artificiais seriam tão reais quanto as nossas e você deveria levar elas pra missa no domingo, por que não?

E também nem começamos a cogitar as obrigações éticas que surgiriam com o surgimento de vidas assim. Seria correto desligar o micro na hora que bem entendêssemos? Não estaríamos 'matando'?

Henrique Rossi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Henrique Rossi disse...

Bom, isso é só uma opinião sua, mas eu concordo dependendo do que você queira dizer com isso. Eu acho que uma consciência simulada estaria pra uma consciência 'real' assim como uma prótese de mão com nervos e músculos (artificiais) e tudo mais estaria para uma mão 'real'.

Por esta razão que você enunciou melhor que eu, não haveria problema algum em desligar o micro quando bem entendêssemos. O software reconheceria a operação e, quando fosse novamente religado, estaria chorando desesperadamente! É sério! rs..

Henrique Rossi disse...

Voltei logo porque, além de ver sua resposta, queria compartilhar duas notícias interessantes:

Enquanto muitos querem sair

http://edition.cnn.com/2009/US/10/21/new.york.subway.ads/index.html?iref=mpstoryview

muitos querem entrar

http://edition.cnn.com/2009/WORLD/europe/10/20/vatican.anglican.church/index.html

Esse mundo é muito gozado...

Tive que refazer os posts porque um dos links falhou.

Henrique Rossi disse...

http://edition.cnn.com/2009/WORLD/europe/10/20/vatican.anglican.church/index.html

Henrique Rossi disse...

aff.. é o demônio que não quer você saiba da notícia..

procure na cnn enquanto estiver na capa... é sobre a integração dos anglicanos que solicitaram o retorno à Igreja contanto que mantivessem suas tradições próprias..

André T. disse...

'Por esta razão que você enunciou melhor que eu, não haveria problema algum em desligar o micro quando bem entendêssemos. O software reconheceria a operação e, quando fosse novamente religado, estaria chorando desesperadamente! '

Você ficaria feliz se te colocassem em um coma sem sonhos e te ligassem de novo depois? Eu não :)

Henrique Rossi disse...

Então.. Aos poucos gostaria de chegar na questão central que é:

SOFTWARE x HARDWARE

Nos computadores temos essa dualidade. Nos humanos não. O homem é uma unidade. O computador somente será capaz de emular uma mente, sem que, com isso, ele consiga ser uma mente de fato.

Apesar disso, há um pouco de software no homem: chama-se meio. Se clonassemos Adolf Hitler a nova versão talvez seja um sujeito bastante pacífico. Pela educação que receberia provavelmente teria muita vergonha do original.

André T. disse...

Nos computadores temos essa dualidade. Nos humanos não. O homem é uma unidade.
De todas as pessoas, você é de quem eu menos esperaria uma afirmação dessas. Isso que você afirmou é, estranhamente, exatamente o que se espera de alguém com uma visão de mundo naturalista.

O computador somente será capaz de emular uma mente, sem que, com isso, ele consiga ser uma mente de fato.
Se formos tentar criar uma mente igualzinha a uma mente humana, sim. Mas não acho que a mente humana seja o único tipo de consciência possível - seria só um primeiro passo. Se chegarmos a esse passo, vamos dar muitos outros. Um computador poderia fazer muito melhor do que isso.

No computador também não existe essa dualidade, pelo menos não da forma com que você imagina. No fundo, no fundo, tudo no computador é físico. O software é na verdade um conjunto de instruções (que existe fisicamente) que são executadas por um processador (também fisicamente). Temos a 'ilusão' de que software é algo totalmente diferente de hardware, mas isso é mais uma arbitrariedade do que uma realidade.

O real problema da diferença entre uma consciência artificial e uma consciência humana é que programas são determinísticos (ou melhor: conhecendo a entrada, conseguimos saber exatamente qual será a saída) e muitas pessoas acreditam que seres humanos tem um 'quê' indeterminístico, o tal livre-arbítrio. Mas a questão é que, dada a quantidade gigantesca de entradas que um cérebro suporta, a distinção fica praticamente irrelevante, pelo menos no que diz respeito ao que pode ser observado.

Em outras palavras, você poderia filosoficamente argumentar contra ou a favor do livre arbítrio somente para a mente humana, mas na prática teríamos dificuldades muito sérias para saber se cérebros artificiais também teriam livre arbítrio (e também, se os humanos realmente tem livre arbítrio ou se é só uma ilusão, como também muita gente acha).

André T. disse...

(Estou gastando nos comentários várias das ideias que tinha tido pra outro post :( )

Henrique Rossi disse...

Mas não acho que a mente humana seja o único tipo de consciência possível - seria só um primeiro passo.

Sim! Não duvido que os computadores farão coisas absolutamente incríveis! Não duvido sequer de viagens em velocidade mais alta que a da luz! Não duvido de nada! Mas creio que para que uma máquina tivesse as mesmas propriedades que nos constituem ela precisaria ser um de nós.

O software é na verdade um conjunto de instruções (que existe fisicamente) que são executadas por um processador (também fisicamente).

Então, mas a base material do software é irrisória: sinais de 1 ou 0. Em um CD as inscrições do software se limitam a ridículos pedacinhos queimados e outros não. Na verdade o software é um pedaço do pensamento humano materializado e, após a sua instalação em um hardware que o compreende, torna-se operante conforme as vontades de quem o desenvolveu.

Assim como as palavras que rementem a algo que não elas próprias, os softwares são símbolos que instruem às máquinas como elas devem operar. Aqui chego em uma das partes mais interessantes da minha argumentação: software, assim como o pensamento, não existe. Assim como as sinapses carregam pensamentos, os CDS e os discos rígidos carregam coisas que não são os softwares de fato.

na prática teríamos dificuldades muito sérias para saber se cérebros artificiais também teriam livre arbítrio (e também, se os humanos realmente tem livre arbítrio ou se é só uma ilusão, como também muita gente acha).

Claro, tanto que a psicologia behaviorista, a única propriamente científica, desconsidera por completo o pensamento. Note bem, é muito sério isso que eu escrevi. Uma das mais influentes correntes da psicologia afirma a impossibilidade de se verificar a existência factual de um pensamento. Mais uma coisa curiosíssima: ao mesmo tempo em que dizem isso, não negam que o pensamento exista. Apenas não há como comprovar a sua existência.

Lembrei-me da história famosa da cerimônia de comemoração do retorno de um astronauta da União Soviética. Ele estava em uma roda com membros do partido e um médico neuro-cirurgião cristão. A certo momento da conversa ele exclamou: "Estive no céu e não vi Deus!" Respondeu-lhe o cirurgião: "Já abri vários crânios e nunca vi um pensamento". Assim como a energia elétrica e o pensamento, não ser possível ver alguma coisa não significa que ela não exista.

Henrique Rossi disse...

vamos ver se este link funciona, rs...

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/almas-baldias-terras-devastadas/#comment-769428

Arthur Tavares disse...

Em meu trabalho de Tcc sobre inteligência artificial, entre tantas coiss, defendo que um computador só poderá ser considerado auto-consciente quando escrever - sozinho - na tela algo como "não me desligue".

Muito bom texto!