quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Gattaca e síndrome de Down



Primeiro, pegue uma questão cabeludíssima sobre aborto de fetos com síndrome de Down (sendo o aborto legalizado, é ético abortar um feto que irá nascer com sérios problemas cognitivos? Que não seria abortado caso não tivesse esses problemas?).

Adicione uma notícia sobre fabricação de espermatozóides e óvulos em laboratório - dizem que em cinco anos vai ser possível um processo totalmente artificial. Considere a possibilidade de escolher as características da criança que vai nascer, como quando você vai jogar algum RPG no computador e tem oportunidade de desenhar o rosto, o corpo e traços de personalidade do protagonista.

Misture bem e leve ao fogo. Devagar, vá adicionando paulatinamente informações diversas sobre órgãos artificiais - mãos, braços, pernas, corações, pulmões, pâncreas, you name it. Polvilhe com fragmentos de câmeras conectadas ao cérebro  que funcionam como substitutas para olhos.

Depois de solidificar, coloque a massa na forma de conceitos transumanistas (abraçar a tecnologia genética, pular fundo dentro da piscina dos genes). Cubra com singularidade tecnológica (o ponto em que o avanço tecnológico tende a um valor infinito). Deixe assando por alguns séculos, ou décadas, ou anos, ou nunca. Isso não sabemos.

O bolo que sai do forno de muito difícil digestão, concordo. E é real; dentro de um futuro próximo, poderemos, se quisermos, ser mais do que humanos. Mais fortes, mais inteligentes, mais rápidos. É um assunto pra lá de polêmico, e ninguém quer uma multidão de loiros de olhos azuis. Mas não tem que ser necessariamente assim; temos que aprender a ser melhores humanos para só então sermos mais do que humanos. Afinal, se a evolução espiritual é tão prezada, porque não pensar também na evolução da espécie?

Pensei nisso ontem e hoje e tendo a acreditar que (mesmo tendo lido 1984 e tendo assistido Gattaca) os potenciais benefícios seriam muitos para descartá-los sem julgamento. Mas também tenho meus medos, e ainda não tenho opinião formada sobre a situação como um todo.

É realmente um caso a ser pensado. Para quem se interessar, vale a pena ler sobre transumanismo e pós-humanismo, links ali em cima.

3 comentários:

Suzana Elvas disse...

"Pode-se ainda objetar que constitui um erro [o aborto e] substituir um feto [...], pois o ato sugere a todos os deficientes vivos que suas vidas valem menos a pela ser vividas do que a vida de quem não é deficiente. No entanto, é um desafio à realidade negar que, em geral, seja assim.

Essa é a única maneira de dar sentido às ações que todos aceitamos como ponto pacífico. Lembre-se da talidomida: esse remédio, quando foi tomado por gestantes, fez muitas crianças nascerem sem braços ou sem pernas. Descoberta a causa dos nascimentos anormais, o medicamento foi retirado do mercado e o laboratório responsável foi obrigado a pagar indenizações. Se realmente acreditássemos que não há motivo para se julgar potencialmente pior do que a vida de uma pessoa normal a vida de uma pessoa deficiente, não teríamos considerado uma tragédia. Nenhuma indenização teria sido exigida, nem sequer concedida pelos tribunais; as crianças teriam sido apenas "diferentes".

Poderíamos até mesmo ter deixado o remédio no mercado, para que pudessem continuar a usá-lo as mulheres que durante a gravidez vissem nele um sonífero útil. Se achamos grotesca a proposta é só porque nenhum de nós duvida de modo algum que seja muito melhor nascer com todos os membros do que sem eles."

Peter Singer, "Vida ética"

André T. disse...

Suzana, obrigado pelo comentário!

Caramba, já tinha ouvido falar desse cara, mas só fui atrás de saber alguma coisa agora. Muito legal.

De qualquer jeito, deve ser meio difícil ler sobre filosofia da moral, não? Ou os livros dele são 'práticos'?

Suzana Elvas disse...

Os livros dele são cheios de exemplos do que acontece. Como a grande discussão que há tempos rola na Inglaterra sobre se é humano manter bebês vivos, vítimas de doenças genéticas, que jamais terão consicência e vivem sentindo dores atrozes.

Ele trata de todos os temas considerados tabus - em primeiro lugar, aborto e infanticídio - sempre apresentando o lado de quem defende e o de quem ataca. E termina desconstruindo os dois, erigindo um terceiro lado.

Dá um nó na sua cabeça. Daqueles bem apertados.