sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A lógica e o manifesto Unabomber



Theodore Kaczynski era uma pessoa meio estranha. Ele acreditava em coisas estranhas. Muita gente já ouviu falar dele pelo apelido, Unabomber, mas pouca gente já parou pra ler o que ele escreveu, o que ele queria. Não que ninguém deva perder tempo com isso, mas é no mínimo um exercício interessante.

Acabei caindo na página do manifesto algum tempo depois de ter assistido ao Clube da Luta. Tyler Durden, o alter ego machoso do Narrador da história do Clube, tem ideias e métodos parecidíssimos com os de Kaczynski. O manifesto é longo, bem elaborado, bem explicado, acessível. Se a minha memória e as minhas consultas por resumos no Google não me falham, ele se baseia no seguinte (vejam bem, estou só listando, não afirmando que concorde com qualquer coisa):

1. A sociedade pós industrial que conhecemos está em franca decadência. As pessoas, apesar de viverem mais tempo, estão muito menos felizes do que eram quando tinham vidas simples, trabalhavam na terra e dependiam menos de outras pessoas para conseguir o que precisavam.

2. A maior razão para a felicidade das pessoas diminuir é que sua liberdade diminui em decorrência da vida moderna. A revolução industrial trouxe mais regras, mais dependência externa e mais limitações. Até utensílios que aparentam aumentar a liberdade das pessoas, como carros, por exemplo, são na verdade limitadores e criam mais regras a serem obedecidas. Você perde a liberdade de andar à toa na rua sem se preocupar se vão te atropelar ou não, coisa que era absolutamente possível antes da revolução industrial.

3. A democracia é uma ilusão de participação. Mesmo que, por exemplo, Obama represente a maioria da população americana, ele toma decisões que afetam pessoas que não poderiam votar a favor ou contra ele - por exemplo, mexicanos e brasileiros.

4. A maior mostra da decadência moral moderna é o fenômeno conhecido como esquerdismo. Kaczynski passa vários e vários parágrafos definindo o que é de fato ser esquerdista, e chega à conclusão de que alguém de esquerda, na verdade, é um frustrado cheio de sentimentos de inferioridade.

And on, and on.

A conclusão a que ele chega é que a única forma de corrigir a situação é abrirmos mão totalmente da ciência e da tecnologia e voltarmos a viver como vivíamos antes da Revolução Industrial. Ele acredita que podemos chegar nesse ponto pela revolução, derrubando os governos, e, como não podia deixar de ser, matando pessoas no processo. Seria um mal necessário.

Desde o momento em que comecei a ler o manifesto já não concordava com o que Kaczynski afirmava. Mas o que de fato me impressionou, e me impressiona até hoje, é como lendo seu texto eu ficava apenas com a impressão de que ele estava, de alguma maneira, profundamente errado - e eu, perdido naquelas linhas agressivas e estranhamente bem construídas, não conseguia ver onde estavam todos aqueles erros. Pra mim era óbvio que o Unabomber tinha errado em algum ponto ou em vários pontos; mesmo que eu não conseguisse descobrir exatamente onde, as conclusões a que ele chegava eram flagrantes absurdos.

Isso me serviu como um aviso: não é porque a pessoa parece falar de forma logicamente bem construída que seu raciocínio está correto. É preciso muito, muito cuidado, particularmente quando as conclusões levam à discriminação, a desentendimento, a preconceito (mais ainda quando envolvem bombas). Já vi pessoas inteligentes soltarem frases racistas porque lhes parecia naquele momento que o racismo era uma conclusão logicamente correta; é óbvio que não era, já que qualquer tipo de racismo implica em desprezar um sem-número de fatores e explicar todas as diferenças observadas usando apenas um - fator esse que, por sinal, não faz diferença alguma.

O tempo passou, e agora relendo o texto noto vários pontos em que Kaczynski assumiu premissas que eu não aceitaria, ou tirou conclusões precipitadas baseado em informações que lhe interessavam, desprezando as contrárias às suas afirmações. De qualquer forma a lição ficou e, toda vez que leio alguma coisa categórica demais, de Olavo de Carvalho a Oscar Niemeyer, fico com os dois pés atrás. E ficar com os dois pés atrás, pelo menos nesses casos, não é nem um pouco ruim.

9 comentários:

Henrique Rossi disse...

Muito bem André!

Se você tivesse três pés, deveria manter até mesmo o quarto para trás.

Além de um post sobre aquilo que chamei de "linha clara que define o que é o bem e o que é o mal", gostaria de escrever um post sobre a moderação (cujo modelo mais admirável, na minha opinião, é o exemplo platônico da biga, não sei se o conhece).

Também a liberdade de pensamento recomenda uma saudável distância de tudo aquilo que é muito diferente do nosso pensamento.

Entre o Olavo e o Reinaldo Azevedo, fico com o segundo, pois apesar do Olavo ver mais longe, ele tem um texto muito extremado, que as vezes chega me deprimir, o que nunca me aconteceu lendo o Reinaldo.

André T. disse...

Também a liberdade de pensamento recomenda uma saudável distância de tudo aquilo que é muito diferente do nosso pensamento.
Não sei se entendi o que você quis dizer. Se fosse por isso a gente nem deveria conversar :D

Entre o Olavo e o Reinaldo Azevedo, fico com o segundo, pois apesar do Olavo ver mais longe, ele tem um texto muito extremado, que as vezes chega me deprimir, o que nunca me aconteceu lendo o Reinaldo.
Não conheço o Reinaldo, vou procurar. Não gosto do Olavo porque ele é plenamente arrogante e, apesar de ser muito culto, já peguei ele falando besteira (e algumas vezes das grandes) quando escreveu sobre assuntos que eu conheço.

Suzana Elvas disse...

André;

Recomendo "Ética prática", do Peter Singer. Se não leu, leia. Você sente o cérebro dando um nó beeeem apertado dentro da sua cabeça - e ele mostra como desatá-lo.
Bjs

Mariana. disse...

Seus textos são muito bons. Agora que terminei de ler os arquivos, posso acompanhar.

André T. disse...

Suzana, vou ter que criar uma listinha só com as suas recomendações. São sempre ótimas :)

Mariana, obrigado pelo elogio. Mas não me tenha em tão alta conta. É só um blog! hehehe

David Giassi disse...

Unabomber é um gênio! Suas palavras são o reflexo do mundo em que vivemos, em que a tecnologia é sinônimo de aprisionamento e coação (como celulares e Internet, por exemplo). Compartilho as idéias dele inclusive na música que faço...

Arthur Tavares disse...

O princípio da matemática é claro: uma premissa incorreta gera resultados incorretos.

Você pode provar que 2 + 2 = 5 (um matemático fez a conta, sem erros, ao vivo, no jô soares, só procurar...). Mas, essa conta estará incorreta porque o princípio dela é incorreto.

Como a matemática espelha a vida, toda a filosofia deve pertir de um conceito verdadeiro para se tornar verdadeira.

Li o manifesto e não achei tão absurdo assim...

Anônimo disse...

Que bosta de texto.

Em resumo: esse texto diz que um texto que "parece" ser lógico pode ser, no fundo, absurdo, só porque o seu leitor tem uma "impressão" de que ele é absurdo.

Quem escreveu esse texto e quem o elogia deviam todos se matar.

Salve unabomber.

Anônimo disse...

Unabomber não é louco, muito menos escreve asneiras. Ele é apenas um visionário. Nada do que ele falou é mentira, sobre a manipulação do comportamento humano, alienação, falta de autonomia levando à problemas psicológicos. Não adianta discordar dele se não quiser observar o discurso e como esse se encerra. Só vejo um problema na solução revolucionária dele: Não seria possível todas as pessoas abandonarem a tecnologia e viverem só de recursos naturais pois com uma população de mais de 7bilhões no mundo, esses recursos não seriam suficientes, logo, haveriam guerras e pessoas articulando um retorno triunfante do sistema Industrial. O cara é um gênio não só por ser matemático, mas, por visualizar o que muitos preferem ignorar.